OM MANI PADME HUM

“As pessoas ficam doentes física e mentalmente. Para alguns, a vida é apenas um retardo para a morte; para outros, a morte é mais bem-vinda que a vida. Alguns levam uma vida miserável, incapazes de encarar a morte; outros se suicidam, por serem incapazes de encarar a vida. Estas experiências fazem você crescer por dentro. Se Deus não fez este mundo apenas para o sofrimento, e, se houver algo mais (e eu intuitivamente pressinto isso), eu o descobrirei."

Swami Sivananda

terça-feira, 6 de julho de 2010

O Que São Yamas e Nyamas? Que Papel Desempenham no Caminho de um Yogui?


Certa vez, um importante sábio que viveu alguns milhares de anos atrás resolveu olhar com carinho para as nobres informações contidas nas escrituras sagradas da Índia antiga sobre um sistema filosófico chamado Yoga. Depois de um longo trabalho de organização e classificação desse vasto conteúdo, surgiu o Tratado mais verdadeiro e completo sobre Yoga até os tempos atuais, o Yoga Sūtras de Patañjali. Patañjali era o nome desse mestre e o Tratado é composto de 195 versos (ou aforismos=sūtras), provavelmente, por ser o modelo literário mais usual da época.
Assim, surgiu a sādhana, ou prática espiritual, definida por Patañjali. Sādhana compreende a relação de ferramentas disponíveis no yoga para que se atinja a grande meta: Tornarmo-nos conhecedores de quem Somos de verdade e obtermos clareza da mente para atingirmos a liberação dos sofrimentos (samādhi) comuns da existência na vida material! É aí que os yamas e nyamas entram em cena, como atitudes de controle sobre sentimentos e ações que são naturais do ser humano, porém geradores dos sofrimentos. E o segundo capítulo do Yoga Sūtras, Sādhana Pādah, versa sobre os sofrimentos, suas causas e, principalmente, Disciplina, yamas e nyamas.  
Se desejamos nos tornar Verdadeiros yoguis, devemos conhecer não somente os āsanas, prānāyāmas, pratyāhāra (abstração dos sentidos) dhāranā (concentração) e dhyāna (meditação) normalmente ensinados nos núcleos de Yoga, academias, etc., onde são realizadas as práticas físicas. É preciso ir além e conhecer também as disciplinas para a harmonização do homem com a sociedade e consigo mesmo, yamas e nyamas, para, enfim, atingirmos samādhi.  
 Yama vem de PARAR, SEGURAR, CONTROLAR, algo em relação aos outros, à sociedade. A natureza humana nos conduz o tempo todo para atitudes contrárias às preconizadas nos yamas, se não tivermos esse controle, embarcamos como papel ao vento seguindo apenas nossos instintos oriundos da natureza material, humana e, portanto, ignorante. Ficamos presos na roda de samsara, que é viver amarrados a uma orientação criada pela mente. A mente é treinada a seguir determinados hábitos e essa orientação fica impressa. É preciso muita disciplina para se quebrar o ciclo! Além do mais, segundo o Sūtra 2.31, “ete jatidesakalasamayanavacchinnah sarvabhauma mahavratam” (Yama é um grande compromisso em relação a todo o mundo, independente de classe, país, tempo ou circunstâncias; tradução de Gloria Arieira), essas condutas não beneficiam apenas o praticante individual, mas toda uma humanidade.
São cinco os yamas que permeiam essa caminhada: ahimsā, satya, asteya, brahmacarya e aparigraha.
Ahimsā é a atitude de não ser violento sob nenhuma perspectiva, portanto nossa natureza violenta instintiva deve ser controlada se desejamos alcançar o Conhecimento. Violência verbal, física, intencional, do pensamento, todas estão incluídas nesse processo para que não causemos danos a outros, seja um ser humano, um animal ou um vegetal. Quando a pessoa atinge naturalmente este estado, ela não pensa mais que não deve ser violenta, simplesmente não consegue ter atitudes destrutivas ou violentas.
Satya é viver na Verdade. Praticar a veracidade, firmeza de identidade entre pensamento – palavra – ação. Antes de tudo, ser verdadeiro consigo.
Asteya significa não roubar, que pode ser interpretado como não obter algo que pertence à outra pessoa, mas também controlar o desejo de possuir o que não lhe pertence.
Brahmacarya pode ser traduzido como ”ir para Brahman”, ou seja, mergulhar na reflexão e adotar uma vida de estudos e disciplinas, em que tudo se torna menor e o estudo acerca do Poder da Criação passa a ser a essência da vida. Nesse caminho, a pessoa é capaz de alcançar poder e força interior.
Aparigraha é a prática do desapego, não acumulando bens desnecessários à manutenção de sua vida e aprender a viver com o que é essencial. Segundo o Sūtra 2.39, quando se está estabelecido em não acumular objetos, obtém-se o conhecimento de vidas passadas.
Passamos agora ao entendimento dos Nyamas, que são as ações pertinentes ao indivíduo, pois ny em sânscrito quer dizer para dentro, assim, podemos dizer que nyamas são as restrições e os controles que praticamos para nós mesmos. É algo individual, traduz-se na atenção que destinamos à organização da nossa vida pessoal e as condutas que devemos adotar para conosco a fim de atingirmos essa meta. Os nyamas também são cinco: śauca, santoșa, tapah, svādhyāya e iśvarapraņidhāna. Vamos a eles:
Śauca representa a purificação em todos os sentidos. É a busca da pureza de pensamentos, palavras e ações.
Santoșa é o estado de contentamento. Ter o pé no chão, viver com o que se pode e sentir-se bem assim. Obtendo-se a pureza da mente (śauca), adquire-se a atitude satisfeita da mente. “Da satisfação, vem o ganho de incomparável felicidade”, sūtra 2.42.
Tapah são as disciplinas específicas que nos impomos para aprendermos a superar algo muito difícil para nós. É uma atitude de austeridade e autosuperação, um trabalho para a mente.
Svādhyāya é o ato de nos dedicarmos ao estudo de assuntos de nosso próprio interesse. “Do estudo, há a união com sua forma divina predileta”, sūtra 2.44.
Iśvarapraņidhāna é manter a mente no Todo, na Força Maior ou inteligência cósmica que se sustenta. É a entrega verdadeira a essa inteligência cósmica como Governante do Universo e que habita o interior de cada criatura.
Assim, finalizamos o discurso sobre as condutas éticas que completam o significado de Yoga. Mas, devemos ter consciência de que a razão do Yoga não são os yamas e nyamas. Esses são apenas instrumentos (e nem devemos nos apegar a eles) para atingirmos a meta principal. E a meta principal não é a sādhana, mas a obtenção do Conhecimento, clareza da mente, samādhi!

Hari Om!
Glaucia Cantergiani

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