OM MANI PADME HUM

“As pessoas ficam doentes física e mentalmente. Para alguns, a vida é apenas um retardo para a morte; para outros, a morte é mais bem-vinda que a vida. Alguns levam uma vida miserável, incapazes de encarar a morte; outros se suicidam, por serem incapazes de encarar a vida. Estas experiências fazem você crescer por dentro. Se Deus não fez este mundo apenas para o sofrimento, e, se houver algo mais (e eu intuitivamente pressinto isso), eu o descobrirei."

Swami Sivananda

sexta-feira, 5 de abril de 2013


O CORPO

UMA RELEITURA DO CORPO FÍSICO VINCULADA À VISÃO DO YOGA
O Corpo Físico é a ferramenta mais acessível para trabalharmos. Quando uma vida se inicia, inicia-se também um novo projeto: o corpo físico. Esse projeto tem como objetivo a construção de espaços e estruturas para manter a pulsação que vai nos possibilitar atividades especializadas, e é já no início da vida humana que se estabelece um poderoso padrão pulsátil entre mãe e bebê. Nos escritos mais recentes sobre a relação das manifestações corporais com os aspectos emocionais do indivíduo, podemos obter a informação de que é a vitalidade do padrão pulsátil, a força e a intensidade das pulsações dos órgãos que dão energia e identidade pessoal ao indivíduo. A verdadeira identidade surge da qualidade da sensação das ondas pulsáteis internas dos músculos lisos dos órgãos.
É através deste veio que este texto pretende passear na vida do corpo humano, observando as implicações físicas oriundas das combinações de sentimentos e sensações provenientes de nossas mentes e suas correlações com a espiritualidade na visão do Tantra Yoga. Sendo assim, podemos tratar o assunto como uma releitura da anatomia humana de forma geral sob a abordagem dos aspectos anatômico-emocionais do corpo humano e suas correlações com o Yoga.
v ANATOMIA – CORRELAÇÕES ENTRE O MATERIAL E O SUTIL
Na anatomia sutil, o corpo físico, ou denso, é chamado de sthῡla śarīra e é composto dos cinco mahabutas: espaço, ar, fogo, água e terra. No processo da Criação, a combinação destes cinco elementos com as três características básicas de toda e qualquer manifestação da Criação, os três gunas (rajas, sattva e tamas), é o que define as diferentes naturezas dos indivíduos. Podemos dizer que o surgimento de uma personalidade humana em um corpo físico é fruto de um número sem fim de combinações entre os cinco elementos sutis com os três gunas (ou qualidades de personalidades), uma vez que cada um dos cinco elementos possui os três gunas.
Mas, o homem intelectual, provido de uma mente capaz de investigar e desenvolver tantos conhecimentos, estabeleceu sua visão científica desse corpo na vida humana. Aqui, pretendo apresentar um pouco desta visão para fazermos uma correlação entre a visão sutil e a visão material de corpo de emoções, histórias e registros inúmeros.
 Os gunas representam a qualidade das nossas ações. São as características de nossa formação sutil que representam os potenciais dos nossos órgãos dos sentidos no corpo grosso. Ou seja, pelo somatório dos elementos a partir do guna tamas o corpo grosso é formado. Para que o corpo grosso funcione, é preciso que a energia sutil, prāṇa, mova as mãos, os pés, o ânus e as genitais a partir do guna rajas. Por sua vez, o guna sattva é que move os órgãos internos, a mente, o intelecto, o ego.
Já o projeto do corpo humano pela visão científica consiste de espaços e estruturas cuja finalidade é manter a pulsação originária da vida humana para que seja possível a realização de atividades especializadas. Sendo assim, no processo inicial de surgimento do corpo físico formam-se as camadas teciduais visíveis (neural, muscular e orgânica) e uma camada hormonal invisível, que são os líquidos que geram e regulam o crescimento, a reprodução, a transmissão de informações, os sentimentos, etc. Através da relação entre essas camadas surgem as experiências diversas como toque, sons, sentidos externos, temperatura, pressão, elasticidade, ritmo, motilidade, etc.
Segundo Stanley Keleman, “o processo somático concerne ao modo como padrões de sentimentos de bem-estar, de estresse e distresse, e de emoção são organizados como tipos específicos de pulsação.” É nos espaços internos do corpo grosso (crânio, tórax, abdomen, pélvis e outros), onde que se acumulam e se movem os líquidos corporais, que encontramos as funções de vida mais profundas (reprodução, purificação da água, transformação de alimentos, etc.). Quando esses espaços internos se tornam densos, entram em colapso ou resistem à pressão, geram uma mudança na qualidade das sensações e pulsações que configuram a nossa identidade. Segundo essa abordagem científica, o metabolismo interno é uma forma de pensamento, um pensamento organísmico, e a forma de pensamento precede as palavras sendo um processo transmitido por tradição genética.
Enquanto isso, na visão do yoga, vemos o início da vida humana num corpo pelo surgimento dos veículos de manifestação do indivíduo em três corpos (śarīra): corpo causal, sutil e grosso (karana, sῡkṣma e sthula respectivamente). Esses corpos possuem invólucros, que são camadas sutis que nos dão a falsa impressão da limitação e encobrem o Ātmā, ou nosso Eu Real.
Ø O karana śarīra é corpo causal porque é a causa dos nascimentos por ser a ignorância do Ātmā. O invólucro que encobre o Ātmā neste corpo chama-se ānandamaya kośa e nos faz crer que as experiências de felicidade (que na verdade são originárias do Ātmā) sejam vistas como originárias do mundo devido à ignorância.
Ø O Sῡkṣma śarīra é o corpo sutil constituído pela mente, o intelecto e o prāṇa. Este corpo tem três invólucros que chamam-se vijñanamaya kośa (que nos dá a noção de individualidade e julgamento), manomaya kośa (que nos dá a percepção do mundo exterior como instrumento psíquico da mente) e prāṇamaya kośa (onde se desenvolve a maior parte da atividade psíquica pela atividade dos cakras).
Ø O Sthula śarīra é o corpo físico com o qual nos deparamos visualmente para abordamos todo esse universo sutil até chegarmos à Realização de nós mesmos. Seu invólucro chama-se annamaya kośa, que significa bainha do alimento, cuja formação são os cinco elementos grossificados.

Analisando sob o ponto de vista grossificado, temos os músculos como principais veículos de trabalho em nossas práticas yoguícas. Uma vez que os músculos estão ligados a todas as camadas do cérebro e da medula espinhal, podemos visualizá-los como nervos grossos (considerando cérebro e músculos um órgão único). Os músculos sustentam a postura, executam ações e proveem informações sobre identidade e limites. Os três tipos de músculo (estriado esquelético, estriado cardíaco e liso) recorrem a três padrões de bombeamento: a cadência rítmica da bomba cardíaca; a onda longa, uniforme, contrátil e lenta dos músculos lisos; e a duas ondas dos músculos estriados, a fásica, rápida de ação limitada como a do bíceps, ou a de longa duração e estável como a dos músculos antigravitacionais e da coluna vertebral. Quando os músculos e seus bombeamentos estão rígidos devido ao medo, densos por desafio, inchados por falso orgulho ou em colapso por falta de suporte, nossa autoestima se debilita e o autodomínio enfraquece.
Os ossos por sua vez nos dão apoio e firmeza, mas também dão proteção às delicadas estruturas que mantêm seguro o local sagrado em que as células sanguíneas se oxigenam e as células brancas proporcionam imunidade e autorreconhecimento. Uma mãe é capaz de dar suporte ao filho porque seus ossos jovens não se enrijeceram suficientemente ainda. Quando não recebemos esse suporte de nossos pais na infância, tentamos obtê-lo pela contração exacerbada dos músculos que sustentarão os nossos ossos. E se esse recurso nos falha, sentimo-nos em colapso e carentes de autoconfiança. As diversas contrações musculares vão deformando nossos ossos, da mesma forma que uma expressiva falta de tônus muscular pode gerar a perda de suporte. Esse aspecto impresso e registrado em nosso corpo físico pode também ser visto em nosso corpo sutil pelo desequilíbrio energético do primeiro cakra, mῡlādhāra cakra.
Cada um dos cakras representa um nível de consciência com necessidades básicas e registros de uma visão pessoal do mundo e de si mesmo inerentes a cada nível. Portanto, as impressões vivenciadas em nossos corpos, desde a fase intrauterina, vão sendo registradas tanto no campo energético quanto no campo físico. O mῡlādhāra cakra relaciona-se com nossos instintos básicos de autopreservação, nossas vivencias mais arcaicas e primitivas. Se na primeira fase de nossa existência humana experimentamos muitas instabilidades, nossos tecidos corporais nos transmitirão informações que nos levarão a desenvolver apego ou negação na forma de lidar com as necessidades materiais de sobrevivência, e nossa saúde física de forma geral será afetada. Isso acarretará um desequilíbrio neste cakra.
No panorama físico, os efeitos desse desequilíbrio podem ser diversos, por exemplo: quando as articulações sofrem dano ou uma doença, o enrijecimento compacta o organismo, eliminando os espaços dessa grande bomba pulsátil que é o nosso corpo; as sensações se perdem (sensações de alongamento e contração) e a redução da sensibilidade afeta a imagem corporal e o sentimento natural de se mover com confiança. Como exemplo disso podemos destacar situações em que pais que não carregam os filhos, ou deixam de dar a continência suficiente nos primeiros meses de vida, podem levar a criança a enrijecer os músculos a fim de obterem a necessária sensação de suporte. Os reflexos na fase adulta da vida podem ser uma profunda sensação de ansiedade quando essas pessoas tentam desfazer suas contrações musculares, porque lhes falta o suporte interno nos ossos e nas articulações.
Obviamente, do ponto de vista da visão do yoga, é a ignorância de si mesmo que leva o individuo a vivenciar tantos sofrimentos tanto na esfera física quanto mental. Entretanto, é importante conhecer os desdobramentos desse círculo vicioso do samsara nos processos mais delicados de construção do complexo corpo-mente. Afinal de contas, é com os corpos humanos que nos deparamos quando nos propomos a ajudar outros seres humanos nessa empreitada, o sadhana para a libertação!
v RESPIRAÇÃO E CIRCULAÇÃO PRÂNICA

Depois de músculos e ossos, temos toda uma vasta árvore sanguínea. A circulação sanguínea tem sob sua regência um órgão extremamente especializado, o coração. O coração é a bomba central que promove as trocas de sangue e gases em todo o corpo, enviando fluidos energizados para todas as células que formam esse corpo aparente, sthula śarīra.
Também neste segmento, a rigidez ou fraqueza do músculo esquelético cardíaco pode afetar o funcionamento do coração e também dos pulmões, gerando assim sentimentos de ansiedade e inadequação. A respiração é diretamente afetada e as restrições na qualidade da respiração vão gerando enrijecimento de varias partes dessa árvore sanguínea, ocasionando problemas mecânicos e emocionais concomitantemente. A respiração é uma forma especializada de pulsação, significa vivificar, sabemos que não somente pela simples presença do ar mas principalmente pela absorção do prāṇa. Uma vez que os batimentos cardíacos e a respiração estão interligados, eles se influenciam mutuamente; e quando o coração falha por falta de energia, o trabalho da respiração aumenta e vice-versa.
O corpo inteiro é um tubo que pulsa em ondas de expansão e contração na respiração, se falta flexibilidade suficiente e extensa motilidade neste tubo ficamos ainda mais limitados, seja nas ações que podemos realizar ou nos sentimentos que permitimos que emerjam. É simples assim, se os músculos não recebem sangue e oxigênio suficiente, nossas ações ficarão limitadas, se o cérebro recebe pouco oxigênio, ficaremos apáticos, insensíveis, desatentos. Entretanto, o recebimento exagerado do oxigênio no cérebro gera ansiedade, pois somos impelidos a agir. Por isso, mesmo sob o ponto de vista fisiológico, podemos constatar que a pulsação tubária e a respiração são mais do que situações anatômicas, são estados de espírito!
E essa pulsação tubária se faz no corpo físico pela presença dos diafragmas. Em nosso conteúdo anatômico temos algumas configurações que recebem o nome de diafragma, pois são estruturas teciduais que sofrem alterações de contração e expansão promovendo o deslocamento de ar e gerando diferentes pressões.
Os diafragmas que constituem nosso corpo físico auxiliam o processo da respiração nos níveis mais profundos, pois eles aumentam e concentram o fluxo de pressão no corpo todo. Abaixo, estão relacionados os diferentes diafragmas do corpo grosso para que possamos ter consciência de como ocorrem os mecanismos de manobras de pressão e, portanto, de energia em nosso corpo físico:
Ø O primeiro diafragma situa-se nas camadas do crânio, na duramáter e nos ossos, e se estende até o sacro pelo revestimento crural da medula. Esse é o diafragma cerebral e sua pulsação tem um ritmo próprio de 14 batidas por minuto.
Ø O segundo diafragma é formado pela membrana da duramáter junto com a expansão do tronco cerebral, o revestimento da medula espinhal e os músculos occipitais do forame magno. Ele regula a pressão interna da cabeça.
Ø A língua, o palato e todo o teto da boca, os músculos nasofaringianos, a glote, os ossos hioides e os músculos da clavícula constituem o que podemos chamar de assoalho pélvico do cérebro e formam o terceiro diafragma. Além de regular o fluxo de pressão na traqueia, esse diafragma ajuda na postura ereta pelo controle da pressão que vem dos pulmões.
Ø O quarto diafragma separa o tórax do abdomen e é constituído pela caixa torácica, músculos intercostais e intertorácicos e as duas abóbadas do diafragma. Aí se localizam os pulmões e o coração, os tubos do esôfago, aorta, nervo pneumogástrico e veia cava.
Ø O quinto diafragma é o abdomino-pélvico e é formado pelo teto do diafragma, coluna lombar, ligamentos, músculo psoas-ilíaco e assoalho pélvico. Neste segmento estão os órgãos da digestão, excreção e sexualidade, e este diafragma realiza oposição à força descendente da pressão interabdominal que ocorre com a inalação.

Muitas vezes, desde pequenos, cortamos a respiração quando temos medo ou quando nos machucamos. Se tentamos não chorar ou gritar, prendemos a respiração, assim, acabamos por respirar somente quando “temos tempo” ou para exprimir algum alívio. Respirar superficialmente, irregularmente, acaba tornando-se um meio eficaz de não termos mais sensações, falta-nos oxigênio e nossos órgãos vão perdendo velocidade, reduzindo nossas possibilidades de experiência sensorial e emotiva.
Após uma vida de registros comportamentais como os acima mencionados, vamos estabelecendo padrões que ficam impressos na esfera visível e não visível do jīva. Toda esta leitura é feita em nosso corpo sutil por suas interferências diretas na energização dos cakras. Se passamos muito tempo de nossas vidas vivendo a partir de experiências sensoriais e emotivas reprimidas, certamente, acabaremos por desequilibrar energeticamente o anāhata cakra, nosso quinto cakra.
O sistema de cakras oriundo da formação do corpo sutil, ou sῡkṣma śarīra, é o principal instrumento de trabalho do sistema tântrico de yoga, entretanto, os corpos causal e físico também são expressamente influenciados em todo o processo do yoga. Abaixo, vamos explorar um pouco mais a circulação prânica antes de voltarmos à análise dos acontecimentos anatômicos no próximo capítulo.
Sabemos que a necessária circulação de energia por todo o corpo sutil se dá pelas nadīs, que são canais ou fluxos sutis de vibração que se ramificam cobrindo todo o nosso corpo sutil e físico, sendo que no corpo físico não são visíveis aos nossos olhos porque nossos sentidos são lentos demais para alcançarmos a velocidade das vibrações energéticas. Podemos dizer que os caminhos das nadīs se confundem com os das veias, artérias, vasos linfáticos e todos os canais que carregam água, sangue e fluidos de forma geral no corpo grosso.
Quando o oxigênio nos falta, falto-nos também o prāṇa, que recebe também o nome de vayu em sua forma cósmica; e cada cakra tem um vayu com funções específicas. Para a inspiração, o vayu prāṇa localizado no anāhata cakra; para as eliminações, o vayu apana, localizado no mῡlādhāra cakra; para a assimilação, o vayu samana, localizado no manipura cakra; para a distribuição, o vayu vyana, localizado no svadhisthana cakra; e para a ação de inversão, o vayu uddhana, localizado no viśuddha cakra. A energização dos cakras repercute na energização dos plexos nervosos ligados ao Sistema Nervoso Autônomo, sendo assim, por ser autônomo, não temos domínio sobre essas interferências sejam elas inibitórias ou estimulatórias. Por isso, se o corpo físico e mental gerarem registros desestruturadores, esses influenciarão diretamente o equilíbrio energético dos cakras, e na busca de reequilíbrio energético dos cakras podemos influenciar nesse corpo físico e mental através dos plexos.
Para o Tantra, o Universo é a interação entre duas grandes forças polarizadas: Śiva e Śākti (energia do espírito e energia da matéria respectivamente). Aparentemente, isso nos remete a um dualismo pela visão que temos a partir do nosso nível de consciência atual, porém, nos níveis de consciência superiores a face real de todo dualismo é a Unidade. Para uma mente iluminada, o Universo e o Homem são Um!
No processo da Criação em Jīva, vamos nos identificando com cada elemento e, assim, vamos nos “grossificando” até chegarmos ao elemento mais grosseiro, o elemento terra. É aí que o conhecimento de quem Eu Sou fica adormecido e a kuṇḍalinī (śākti) fica presa representando nossa ignorância. Enquanto a śākti, ou energia kundalinī, não despertar, viveremos no mundo da ignorância, sem a descoberta, o despertar de quem verdadeiramente Somos. A kundalinī é a ilusão, a ignorância de que Eu Sou. Portanto, despertar a kuṇḍalinī é despertar a Consciência; enquanto isso não acontece viveremos no mundo das dualidades e conflitos, mas há muito trabalho a ser feito e o caminho é a busca do autoconhecimento. É aí que entra o corpo como uma importante ferramenta desta busca, seja pela execução constante de āsanas, kryās ou prāṇāyamas, o corpo físico é o facilitador de nossa atuação no sutil e nos mostrar as trajetórias que devemos percorrer. Quando começamos a nos interessar pelo Conhecimento mais profundo, pelo desenvolvimento da espiritualidade, podemos dizer que a kuṇḍalinī já começou a despertar no cakra básico (mῡlādhāra); apesar de não ter despertado e não termos atingido o Conhecimento pleno e eterno de que somos Ātmā, já começamos a nossa “subida” em direção à Realização.
v AS REVELAÇÕES DA FORMA HUMANA
Cada forma humana reflete a natureza dos desafios individuais e a maneira como eles afetam o organismo. Por exemplo: enrijecemos por orgulho ou encolhemos por vergonha, endurecemos por privações ou colapsamos por preservação. A anatomia humana, com suas formas específicas e individuais é uma verdadeira morfologia emocional e reproduz um conjunto de sentimentos humanos.
O corpo tem um projeto e os vários tubos e camadas, bolsas e diafragmas que o formam agem em conjunto para dar um sentimento de unidade ao Eu, para produzir um padrão de pulsação. Os músculos geram sensações de ritmo, contenção, continência, liberação, encurtamento e alongamento. Os ossos entram com sensações de compressão e distensão. Os intestinos produzem sensações de inchaço, plenitude e esvaziamento. Assim, tecidos ocos, suaves e densos produzem sensações e sentimentos diferentes, gerando um diálogo sensorial entre as cavidades e os sólidos, entre câmaras líquidas do cérebro e as células musculares de feixes densos. Todo esse relacionamento forma um padrão contínuo de consciência.
Agora que já exploramos aspectos importantes do corpo sob a visão material e sutil, vamos explorar os acontecimentos anatômicos que o corpo vivencia quando o ser humano torna-se um ser autônomo e independente, ou seja, quando assume a postura ereta.
         Pela ótica puramente mecânica, a boa postura ereta é quando os ossos se apoiam uns sobre os outros mantendo-se um alinhamento gravitacional adequado. Mas, ficar de pé é mais do que isso. Existe uma onda vertical pulsátil sustentada por um sistema de suporte feito de tubos, camadas, bolsas e diafragmas. Em condições de equilíbrio, essa onda pulsátil desenvolve movimentos de expansão em direção ao mundo e de afastamento e recolhimento dele, em ritmos variados, permitindo que o organismo dê e receba, se afaste e se aproxime. Assim se dá a organização básica da nossa vida afetiva. Portanto, adotar a postura ereta inclui organizar-se em diferentes níveis: genético, bioquímico, mecânico e emocional. Estar de pé significa estar vulnerável, por isso no mundo animal as partes moles e vulneráveis do organismo ficam mais próximas do chão, protegidas pelas costas e pelos membros. Ao assumirmos a forma humana obtemos muitas conquistas, mas também aumentamos nossa exposição ao ambiente. Algumas conquistas vêm do fato de que aumentamos as informações fornecidas pelos órgãos dos sentidos (olhos, ouvidos, nariz, boca). Assim, abrimos caminho para encontros mais íntimos, mas também para ameaças e perigos. Visto nessa ótica, estar ereto é mais do que ficar de pé, é um evento sócio-emocional que requer uma rede social e interpessoal para se realizar.

Nossa história pessoal e emocional influencia o desenvolvimento e a expressão da forma humana. O cuidado, suporte e transmissão de experiências que a família fornece à criança que está se transformando em adulto completam o desenvolvimento da forma humana. Pois, as possíveis agressões (que são os eventos internos ou externos que despertam nossos reflexos de defesa) oriundas desta fonte geram reações físicas de contração de músculos, suspensão da respiração, entre outras, em nossos corpos. Se a agressão é grave e se sustenta por um bom tempo, o padrão de defesa se aprofunda. Se a agressão continua e as posturas de fuga que adotamos naturalmente não a reduzem, nós nos encolhemos, escondemos, rendemos ou colapsamos. Sendo assim, os perigos internos e externos que vivemos criam reações que mudam nossa forma, e quanto mais persistente for a situação mais estrutural será esta mudança. Isso é o estresse!
O organismo lida de duas maneiras com as agressões que recebe de forma contínua ou cumulativa: resistindo ou cedendo. Quando o organismo resiste, fica em pé perante a agressão a fim de repeli-lo. Quando cede, o organismo se rende, aceitando a agressão e recuando para um nível inferior de funcionamento. Na resistência, o organismo torna-se mais sólido, enrijecido ou retesado, e cria mais forma, estrutura, limites e solidez. Ao ceder, o organismo amolece, rende-se, cria menos forma, estrutura, limites e fica mais liquefeito. Assim vão-se formando os padrões somáticos, que são processos de uma profunda autopercepção, um modo de sentir e conhecer o mundo. Os padrões são mais do que mecânicos, são uma forma de inteligência que promove uma autorregulagem contínua. São também, do ponto de vista anatômico, fenômenos estratificados e tubários que despertam estados musculares da cabeça aos pés, onde músculos e órgãos não estão apenas contraídos, mas organizados em uma configuração.
Através das considerações anteriores, podemos dizer que para compreender um indivíduo, é preciso ser capaz de determinar que configuração pode ser dominante e que outras configurações complexas podem estar presentes, de que modo elas afetam a pessoa emocional e somaticamente. Uma vez que essas configurações tornam-se nossa maneira de reconhecer esse mundo e a nós mesmos, também são uma maneira de nos revelar para o mundo.
Na visão do Tantra, para lidarmos com o indivíduo que busca a evolução e a diminuição dos sofrimentos, o equilíbrio dos cakras, que são os vórtices de energia espalhados por todo o corpo e a liberação do fluxo energético do corpo sutil é fundamental. Conhecemos bem a localização dos sete principais cakras ao longo de todo o eixo vertical do nosso corpo, desde a base do tórax (coluna) até o topo da cabeça. Na visão anatômico-emocional mais contemporânea, também podemos visualizar os processos de desequilíbrio energético desses cakras sob uma ótica mais física, e até mesmo visível.
Conforme conhecemos melhor nosso corpo físico, por dentro e por fora, podemos perceber que alguns pontos específicos do corpo caracterizam-se por haver mais compressão ou contenção, e outros em que isso não ocorre. Ou seja, há uma regulagem maior da pressão e especialização dos segmentos. Alguns exemplos são úteis para visualizarmos esses processos: algumas pessoas encolhem o pescoço até que os espaços entre a cabeça e o tronco desapareçam; outras contraem a cintura a fim de separar o abdomen da pélvis; e outras incham como defesa alternativa. Quando apertamos um segmento, aumentamos a pulsação, quando afrouxamos, diminuímos a pulsação; e quando apertamos alguns segmentos ao mesmo tempo em que afrouxamos outros, criamos uma pulsação desordenada.
Ao fazermos a leitura do corpo e da vida de uma pessoa, devemos ter em mente toda uma configuração particular que se desenvolveu até então tanto no corpo sutil quanto no corpo físico. Uma vez que a proposta no trabalho tântrico é buscar o equilíbrio dos cakras, é importante que tenhamos o conhecimento dos fatos concretos que esse desequilíbrio ocasiona. Por exemplo, pela disfunção energética do anahata cakra o indivíduo pode desenvolver uma bronquite asmática. Mas, nossos sentimentos também podem interferir nestes desequilíbrios. Quando as correntes pulsáteis se amortecem, se imobilizam, são superestimuladas ou concentradas, uma forma somática se estabelece expressando aquilo que vivenciamos. Por exemplo, na asma existe um conflito, pois os pulmões não sabem se devem expirar ou inspirar; a estrutura não pode respirar ou não respira embora esteja tentando fazê-lo; o peito quer descer para ajudar a expiração, mas não consegue e então permanece elevado; embora o cérebro grite para receber ar, os alvéolos não conseguem se contrair e ficam abertos; ou seja, a respiração fica prejudicada porque nem a inspiração nem a expiração se completam. Assim ocorre um conflito pulsátil, que vai produzir padrões corporais em que uma camada do corpo pode estar em bem-estar funcional, enquanto outra está superestimada e uma terceira, inibida. Os reflexos de uma disfunção devem ser olhados atentamente de indivíduo para indivíduo, pois ao adotarmos um padrão de reação à uma agressão, muitas vezes, podemos nos reprimir, inibindo os músculos de ação do esqueleto, enquanto, ao mesmo tempo, estamos nos tornando hiperativos por dentro com órgãos e glândulas em pleno processo de ebulição, ou vice-versa.
v Considerações Finais
Os seres humanos são configurações emocionais complexas, sem forma perfeita, tipo ideal, nem estrutura melhor do que a outra. É preciso termos em mente que no final das contas, sob a ótica da visão dual e da vida universal, as formas somáticas são consequências das tentativas humanas de amar e ser amado. E essa história, cheia de experiências emocionais de cada indivíduo, pode ser encontrada em todos os seus tecidos corporais. A estrutura somática reflete as regras de proximidade e distanciamento, ternura e asserção aprendidas na família de origem. As agressões sofridas são impressas em cada célula, criando uma imagem somática, emocional e psicológica que se entremeia com todos os eventos de vida associados.
Todo tipo de educação somática, inclusive o trabalho do yoga que também pode ser visto desta forma até certo ponto, leva o indivíduo a entrar em contato mais profundo com os fundamentos vivos da existência, que são as ondas pulsáteis que geram excitação, sentimento, pensamento e ação. Nessa busca de educação somática, diversas técnicas foram surgindo, mas nem todas são apropriadas para todos os indivíduos, pois seja no campo da dança, psicodrama, conscientização sensorial ou grounding, cada uma delas deve ser considerada sob a ótica das diferenças individuais estruturais. Cada estrutura (em colapso, rígida, inchada, etc.) precisa de uma abordagem específica, pois a tentativa de atender às expectativas de uma outra pessoa, condutora de uma técnica de educação somática, pode resultar em respostas emocionais indesejáveis.
Com tudo isso, é importante tomarmos consciência de que o trabalho do Yoga, seja na visão tântrica ou noutro tipo de abordagem, se dá diretamente com o individuo e utiliza seu corpo como ferramenta. Ao lidarmos com o corpo, mesmo que tenhamos claro em nossas mentes as limitações e efemeridades desse corpo, precisamos conhecê-lo em todas as suas vertentes. Ou seja, é preciso aprender e repensar a anatomia como mais do que um simples material estático. Na realidade, esta ciência diz respeito a um processo vivo e dinâmico na forma que nos foi dada pela natureza, na forma que criamos como partes de uma sociedade ou família, na forma que estamos moldando neste exato instante. É também um mistério, pois somos nós, jīva, como formas de sentir.

“Conhecer a anatomia emocional é experimentar as dores do desejo e da decepção, os conflitos do contato e a luta pela satisfação, o sabor da intimidade e da individualidade, o conhecimento do amor condicional e incondicional.”   Stanley Keleman



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Este é um Espaço para trocas. Deixe aqui seus Comentários e/ou Perguntas!