OM MANI PADME HUM

“As pessoas ficam doentes física e mentalmente. Para alguns, a vida é apenas um retardo para a morte; para outros, a morte é mais bem-vinda que a vida. Alguns levam uma vida miserável, incapazes de encarar a morte; outros se suicidam, por serem incapazes de encarar a vida. Estas experiências fazem você crescer por dentro. Se Deus não fez este mundo apenas para o sofrimento, e, se houver algo mais (e eu intuitivamente pressinto isso), eu o descobrirei."

Swami Sivananda

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O que é Dharma-Karma-Karma Yoga?


A palavra dharma tem origem na raiz dhr, do sânscrito, e possui vários significados: existir, viver, continuar, segurar, suportar, sustentar. Sendo assim, vem sendo utilizada em seus vários sentidos tendo em vista as várias traduções utilizadas, sendo as mais comuns: retidão, virtude, dever. Num sentido mais amplo, dharma significa a natureza ou caráter de um ser ou objeto inanimado, por isso, podemos falar que plantas, animais, etc., possuem seu dharma. Por exemplo: o dharma de uma vaca é dar leite e pastar (não inclui espreitar e matar presas), do fogo é gerar calor e luz, e assim por diante.
Seguindo esta ótica, segundo a visão dos Vedas, a natureza do ser humano é a plenitude absoluta. Entretanto, em relação ao indivíduo, o dharma pode ter diferentes nuances de significado, uma vez que o indivíduo ainda não reconheceu sua própria plenitude.
O conceito mais evidente de dharma é a ética que regula os desejos do indivíduo que busca o autoconhecimento. Os desejos de riqueza, segurança e prazeres sensoriais são comuns a todos os seres vivos. Nos animais, a busca desses desejos é governada pelo instinto. Quanto ao ser humano, cada um tem a opção de agir em harmonia com sua natureza em relação aos outros indivíduos numa sociedade, ou pode não fazê-lo (livre arbítrio). Sendo assim, não são os instintos, mas os valores que governam a busca por artha e kama (desejos e prazeres) no ser humano. O que dá fim a todos os desejos e objetivos é mokṣa (a liberação, que é o reconhecimento da própria natureza como plenitude). Até que se alcance essa plenitude, as leis do dharma funcionam com linhas de ação que norteiam a nossa vida. Importante lembrar que cada indivíduo deve ter um conjunto de linhas de conduta que governe seus valores, já que os valores são sujeitos a variações e mudanças. Esse conjunto é a ética, também chamado de Dharma. Então, dharma inclui uma ética no bom senso necessário na escolha das nossas ações e a consciência de que todas as nossas ações geram resultados, seja nesta ou noutra existência.
Nos Vedas, as consequências de nossas ações chamam-se punyam e papam, que significam mérito e demérito respectivamente. As ações que tomamos na vida e que geram punyam-papam são o que chamamos de karma. Se damos valor às nossas ações, prestando atenção a elas, seguindo o dharma, podemos dizer que levamos uma vida de karma yogi!

Yoga
Antes de entrarmos no conceito de karma yoga, vamos dar uma pincelada no conceito de yoga e de karma. Atualmente, existem alguns enganos no uso do termo YOGA, pois alguns autores classificam o yoga subdividindo-o em tipos de yoga, por exemplo, bhakti yoga (yoga devocional), jñana yoga (yoga do conhecimento), dhyana yoga (as meditações do yoga), karma yoga (yoga da ação, como é traduzido comumente), hatha yoga, sistema de Patañjali, etc. Entretanto, esses, entre muitos outros, são sistemas ou caminhos do Yoga que vão se adequar ao temperamento de cada indivíduo, são simplesmente atividades que compõem o YOGA. Tudo é o mesmo yoga. Yoga é o estilo de vida baseado no ensinamento védico cujo objetivo é o autoconhecimento, compreendermos nossa verdadeira natureza, nossa relação com o Criador e a Criação.
Outro engano comum é com relação aos estilos de prática de posturas do Hatha Yoga (a parte física do yoga). A diferença no estilo ou método de prática dos āsānas e prānāyāmas dá a impressão de que há vários Yogas, mas Iyengar, Ashtanga, Vinyasa, etc., são apenas estilos diferentes de praticar as mesmas posturas, que também vão se adequar ao temperamento de cada um. Ou seja, é tudo Hatha Yoga.
Yoga é um conjunto de técnicas que visam o equilíbrio do individuo para que ele possa descobrir-se como ser completo. E a descoberta desse ser completo, adequado em si mesmo, que não depende de situações para ser feliz, é o objetivo dos Vedas.

Karma

Quanto ao termo karma, a palavra sozinha significa ação. No sentido pleno, são ações que fazemos na vida. Mas, há outra abordagem de karma que, segundo a tradição védica, relaciona-se com a posição em que nos encontramos agora na sociedade. Segundo os Vedas, há três tipos de karma:
1.     São situações potenciais que poderemos viver, como sementes em depósito aguardando a hora de germinar e que só germinarão se encontrarem solo fértil. Nesse tipo de karma, nós podemos agir para neutralizar o poder germinativo desses acontecimentos, ou seja, mudar ou evitar aquilo que estaria para acontecer. Para isso, é necessário o autoconhecimento!
2.     É o que estamos vivendo agora, o que costumamos chamar de destino, o que foi escrito e condiciona nossa vida atual como: tipo físico, condições psicológicas, biológicas, sociais, etc. Chama-se prarabdha karma. Portanto, são as experiências que temos que viver, na forma de oportunidades, a fim de ultrapassarmos nossas dificuldades. Dessa forma, as situações se repetem na vida da pessoa até que ela esteja preparada para a situação, neste momento, ela não precisará mais viver a experiência porque já ultrapassou a dificuldade.
3.     O karma que está sendo criado agora, por isso temos plena administração sobre ele. É o nosso livre arbítrio relacionado com nossas ações, palavras e pensamentos nesta vida de onde poderemos colher frutos ou urtigas. Para isso, é necessário o autoconhecimento!

Karma Yoga

A partir desses esclarecimentos, podemos voltar ao karma yoga, atitude de yoga. Como vimos acima, Karma yoga não é mais um tipo de yoga nem a ação do trabalho voluntário, apesar desse termo ser usado por alguns para se referir a atividades sem remuneração nos ashrams da Índia ou na sociedade. Na realidade, esse tipo de trabalho chama-se seva. Karma yoga é a maneira como o yogi se comporta diante das ações (karmas) na sua vida.
Na Bhagavad Gītā, a história de Arjuna nos revela que existem dois estilos de vida para o autoconhecimento: a renúncia, em que o renunciante se dedica exclusivamente aos estudos por dom ou temperamento, e o karma Yoga, para os que desejam continuar inseridos na sociedade, porém com a vida direcionada para a busca espiritual. Não é uma questão de repressão ou disciplina rígida, mas a opção de uma vida normal como um meio para autoconhecimento. Sendo assim, na visão védica, a pessoa normal (que não está voltada para o autoconhecimento) faz karma (ações) e a pessoa espiritualizada (que busca o autoconhecimento) faz karma yoga. Assim, o termo yoga está junto de karma apenas para dar esse sentido, de que a ação é Yoga. Vivemos a vida com a atitude centrada nos valores do yoga ao executar nossas ações e com a atitude centrada nesses mesmos valores ao receber o resultado dessas ações. Uma vez que a vida de Yoga passa por aprendermos a viver em harmonia com Deus/Poder Supremo/Força Universal, qualquer ação do nosso dia-a-dia é oferecida à Criação. Esse oferecimento não é para alguém ou algo que esteja fora, que sejamos capazes de deixar zangado ou que tenha um sentimento de falta que caiba a nós preencher. Nesta ótica, Karma yoga consiste em fazer a ação na forma de um oferecimento à Criação, como as que oferecemos a um ente querido, e receber os resultados como vindos da própria Criação de acordo com nossas ações passadas (punyam-papam). Karma yoga é uma atitude na ação que representa uma maturidade no objetivo de vida, onde o autoconhecimento é o foco e a clareza de enxergarmos as limitações das nossas ações vem junto com o entendimento de que o resultado das ações não depende de nós. É dito que qualquer tipo de ação pode produzir quatro tipos de resultados:

Igual à expectativa
Menor que a expectativa
Maior que a expectativa
Totalmente diferente do esperado

Ex.: A pessoa atravessa a rua pra pegar um ônibus e: o ônibus passa bem na hora e ela entra feliz; o ônibus demora a passar e vem lotado; antes do ônibus passar, o colega de trabalho oferece uma carona; ou, a pessoa acordo três dias depois na cama de um hospital porque o ônibus passou rápido demais!
Todos esses resultados são possíveis. Assim, quando cada resultado ou situação surge na nossa vida, aceitamos como uma atitude de reverência de quem está recebendo algo que vem do próprio Criador, não importa se é doce ou amargo, é o que está sendo apresentado naquele momento.
Se tivermos o autoconhecimento como objetivo na vida, toda ação se torna uma possibilidade de crescimento, exatamente o que é preciso ser vivido por nós. Sem canalizarmos nossas expectativas, ficamos a mercê do mundo. Nós somos responsáveis pela ação e a Criação é responsável pelo resultado da ação. Essa maneira de tomar as decisões e encarar as situações na vida é a espinha dorsal do que chamamos de YOGA. O yogi, portanto, é a pessoa que traz karma yoga para a sua vida; karma yoga está embasada nos Vedas, sendo assim, a essência do Yoga está nos Vedas.


KARMA YOGA É A SÁBIA GERÊNCIA SOBRE AS AÇÕES PARA PRODUZIRMOS UMA COLHEITA MELHOR, E ESTA COLHEITA NÃO É GERAR COMPENSAÇÕES NO FUTURO, MAS ALCANÇAR MOKṢHA!

*Texto compilado a partir de textos sobre o assunto de autoria de Glória Arieira, Swami Dayananda e Jonas Masseti.

Um comentário:

  1. Querida Gláucia,
    apenas com o intuito de enriquecer este seu otimo e esclarecedor texto, transcrevo trecho do livro "Iniciação ao Yoga" do Professor Hermogenes, dando nome aos "bois"(karmas) e trazendo a ilustração que citei no satsanga:

    "Em resumo, há não um, mas tres karmas:

    (A)SAMCITA - o acumulado ou potencial ou programado, isto é, aquilo que virá a acontecer. Sobre ele, por meio de processos, técnicas e métodos de Yoga, podemos agir para neutralizar seu poder germinativo ("fritar as sementes", na linguagem de Patanjali). Seria como evitar ou mudar o que estaria para acontecer.

    (B) PRARABDHA - aquele que está se cumprindo, também chamado "Karma Maduro", o qual já não se pode evitar, corrigir, mudar. Só nos é possível padece-lo ou desfrutá-lo com equanimidade e sabedoria. E isto também é Yoga.

    (C) VARTAMANA OU AGAMI - sobre o qual temos plena administração, por ser aquilo que estamos fazendo no presente. Nosso livre arbítrio delibera e faz opções: praticar ou não a ação; conduzi-la num adireção ou noutra. Voce tem domínio sobre a ação (karma) que agora está praticando. Pode optar por contrair dívidas ou ganhar crédito. Plantará frutas ou urtigas.

    Imagine um ARQUEIRO que tem uma seta no arco retesado, tem mais algumas na aljava às costas e há uma que acabou de disparar, voando para o alvo. As setas da Aljava representam o SAMCITA; a seta no arco o AGAMI; e finalmente, a seta atirada, o PRARABDHA. Parece assim não restam dúvidas. Não é?

    A sábia gerencia sobre as ações (karma) é o que se denomina KARMA YOGA, produtora de melhor colheita no futuro. O que, no entanto, é infinitamente mais sábio e importante é utilizar da Lei do Karma para nos libertarmos do dominio da morte ("renascimentos compulsórios"), para alcançarmos a vida Una e Unica. Karma Yoga não existe para assegurar compensações em futuro nascimento, conforme se tem pensado no Ocidente. Existe para nos ajudar a escapar de novos nascimentos, para nos liberar do SAMSARA".

    Beijos,
    Tais.

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