OM MANI PADME HUM

“As pessoas ficam doentes física e mentalmente. Para alguns, a vida é apenas um retardo para a morte; para outros, a morte é mais bem-vinda que a vida. Alguns levam uma vida miserável, incapazes de encarar a morte; outros se suicidam, por serem incapazes de encarar a vida. Estas experiências fazem você crescer por dentro. Se Deus não fez este mundo apenas para o sofrimento, e, se houver algo mais (e eu intuitivamente pressinto isso), eu o descobrirei."

Swami Sivananda

sexta-feira, 20 de junho de 2014

TRANSFORMAÇÃO: Uma Questão de Valores

“Todos conhecem o caminho, mas muito poucos o seguem" (Buddha). 


Durante nossa vida, e principalmente na infância, amigos, pais, professores, nos ensinam como devemos ser, muitas vezes nos "educam" com "mandamentos" que eles próprios têm dificuldades de cumprir. O que esquecem é que ensinar, e educar, é uma questão de agir com coerência. A criança observa preciosamente o que seus pais fazem e acaba repetindo essas atitudes, ainda que o discurso seja diferente. E se nos observarmos em nosso dia-a-dia perceberemos como é fácil se perder no alinhamento entre pensamento-discurso-ação. Quantas vezes dizemos que devemos aceitar o outro como ele é e, em seguida, criticamos e julgamos as atitudes dos nossos pais, cônjuges, filhos, etc. 
É difícil aplicar a coerência entre o pensamento, a fala e as ações em nossas vidas, mas não é impossível. O apego aos padrões automatizados é intenso, vivemos numa sociedade que se julga culpada e pecadora há anos e recebemos lições sociais diárias que nos mostram que esperto é quem pega o seu pedaço do bolo primeiro. Viver no "piloto automático" pode ser uma opção, todos temos direito a isso, mas ter as rédeas da nossa vida nas mãos nos dá a condição de construirmos algo que esteja em harmonia com nossa Essência, nos permite saber quem somos de fato, o que realmente queremos, onde queremos chegar. Quando chegamos neste ponto de autoconhecimento e busca interna, sentimos a necessidade de transformar padrões e realizar mudanças e, aí, nos deparamos com a importância de estabelecermos os valores éticos universais. 
O que é um valor? Podemos defini-lo com uma norma de conduta originada na maneira pela qual eu desejo que os outros me vejam ou me tratem. O que eu desejo dos outros deve tornar-se meu padrão de comportamento, meu comportamento adequado. Em sânscrito, um comportamento adequado também é o significado do tão conhecido termo dharma. Portanto, se eu quero que falem-me a verdade, falar a verdade é dharma para mim. Dessa forma, as normas éticas não são regras arbitrárias criadas pelos homens; elas são o fruto de uma consideração inerente ao seu próprio interesse e conforto. E esses valores éticos podem sofrer algumas variações culturais, mas, basicamente, possuem uma certa universalidade. Entretanto, por serem universais não significa que sejam absolutos. De acordo com as diferentes situações, muitas vezes, precisarei relativizar meus valores apesar de manter seu conteúdo universal.
Amparado na visão dos ensinamentos védicos, swami Dayananda nos mostra a importância de apreciarmos cada valor ético universal, além de adquirirmos nossos valores de forma pessoal e completa. O valor que fala da coerência é arjavam. Arjavam significa retidão, e, ao representar um valor ético universal, a palavra assume um significado mais amplo, sendo a conduta de uma pessoa de acordo seus padrões éticos. É a coerência entre os pensamentos, as palavras e os atos. Isso é possível para aquele que é autêntico, que se aceita como é, que reconhece tanto as suas limitações quanto as suas habilidades. Podemos considerar este valor como uma extensão de satya (falar a verdade), porém arjavam é ainda mais abrangente, pois inclui não apenas a linguagem mas também os pensamentos e as ações.
O não-alinhamento entre pensamentos, palavras e ações resulta numa pessoa dividida, desintegrada, não inteira. Quando satisfazemos um objetivo imediato às custas do valor universal, podemos obter um conforto passageiro, mas a longo prazo haverá o desconforto gerado primeiro pelo conflito, depois pelo aumento do acúmulo de culpas inevitável. Os conflitos aparecem quando somos incapazes de viver de acordo com um determinado valor aceito por nós, consciente ou inconscientemente.
O conteúdo universal dos valores só pode ser descartado se não houver na pessoa qualquer preocupação pela forma como os outros a tratam. Ao desejarmos que uma pessoa se comporte de determinada maneira, estamos invariavelmente presos a um sistema de valores.
Para que realmente possamos educar e transmitir os valores universais às pessoas que nos cercam, precisamos ter esse alinhamento como um valor assimilado. Um valor é assimilado quando a pessoa o segue naturalmente. No caso de satya (falar a verdade), inicialmente, a mente tem que deliberar para falar a verdade, porque agir assim talvez envolva algum sacrifício. Mas quando o valor é seguido constantemente e o valor pela paz da mente resultante dessa atitude é apreciado, falar a verdade torna-se natural. Então, a pessoa só consegue falar a verdade. Assim, deixa de ser mais um valor e torna-se sua própria natureza. Todos os valores deveriam ser assimilados dessa maneira. 
Expandindo ainda mais nossa visão sobre o papel dos valores éticos na busca do autoconhecimento que gera as mudanças, podemos acrescentar outra ótica da mesma abordagem através das seguintes palavras do swami acerca das escrituras sagradas do Vedanta:
“Todas as escrituras recomendam valores para serem seguidos como sadhana; são qualidades a serem adquiridas. Quando se analisa um valor qualquer, verifica-se que ele leva a um valor: gerar uma mente tranquila e manter a pessoa consigo mesma. Quando isso é compreendido, a importância ou a necessidade de seguir valores pode ser apreciada. Senão os valores permanecem apenas como mandamentos, como “faça e não faça”. O problema principal que as pessoas têm com os valores é que elas os aceitam sem descobrir o valor deles. Um pai adverte a filha para falar a verdade. A criança aceita a ordem devido ao amor e ao respeito que tem pelo pai, mas não entende porque ela deve dizer a verdade e não dizer uma não-verdade.O pai não levou a filha a descobrir o valor de dizer a verdade; sua importância na vida não foi explicada. Isso permanece em sua mente como um valor não assimilado que não poderá ser relacionado na vida do dia a dia. O valor de dizer a verdade é de novo confirmado por professores e pes­soas mais velhas, mas a sua relevância para a vida nunca vem a ser compreendida pela criança.
Quando cresce, a criança adquire um valor pelo dinheiro e pelo poder. Falar a verdade permanece apenas como uma obrigação imposta por seu pai e seus professores, e então isso não tem valor para ela. Mas, ganhar dinheiro tem um valor, porque, evidentemente, dinheiro é necessário para viver, para obter prazeres e segurança. O mesmo se pode dizer com relação a obter poder. Os benefícios de adquirir dinheiro e poder são evidentes, as pessoas desenvolvem então um valor por eles. Esses valores são assimilados, não são valores resultantes de obrigações. Se para obter dinheiro e poder for preciso dizer uma não-verdade, a pessoa a dirá, porque dinheiro e poder são considerados importantes, enquanto a verdade não o é. Seu valor não foi descoberto. Falar a verdade é praticado apenas como uma obrigação para com o pai, o professor ou a sociedade, enquanto os valores por dinheiro e poder são assimilados, valores pessoais. Que chance possui o falar a verdade quando as coisas importantes na vida são dinheiro, poder, amigos e influência sobre as pessoas. Falar a verdade é praticado apenas enquanto for conveniente, enquanto não constituir obstáculo para a consecução de outros objetivos. Assim, os valores por certas coisas, como dinheiro, têm sempre a última palavra. Valores como falar a verdade sempre são sacrificados. A conveniência, não a verdade, torna-se a norma reguladora.
Valores não assimilados criam conflitos e um sentimento de culpa. A fim de assimilar valores, é preciso compreender o valor dos valores. Um valor é um valor apenas quando o valor dos valores é valorado. Uma mente simples, tranquila é a coisa mais valiosa, porque é isso que a pessoa está tentando obter através de todos os empenhos na vida. Os valores que ensejam a aquisição desse estado mental deveriam ser os mais valiosos. Assim, se o valor de falar a verdade é descoberto como sendo maior ou pelo menos igual a ganhar dinheiro, a verdade não ficará comprometida por causa do dinheiro. Além do mais, o dinheiro é para benefício de mim mesmo, não para o dele próprio. Se, então, o dinheiro não me trouxer felicidade e conforto, eu, certamente, renunciarei a ele."
Para tomarmos posse do nosso próprio poder, e isso não implica sermos maiores nem menores do que ninguém mas sim ter nosso espaço sagrado preservado, é preciso vivermos nosso melhor potencial, nossas melhores possibilidades, sem termos que ser um outro alguém nem nos deixarmos escolher vivenciar atitudes que reforçam nossas fraquezas. É preciso nos aceitarmos como somos, mantendo a coerência como a base das nossas ações para atingirmos as mudanças que desejamos realizar em nossas vidas, e alcançarmos o desejado estado de equilíbrio.

"É preciso aprender que cada valor tem como alvo o mesmo objetivo - alcançar uma mente tranquila - nenhum valor pode ser seguido como um valor isolado. Não é possível que alguém diga a verdade e seja ao mesmo tempo pretensioso. Ninguém pode praticar a não-agressão sem ser tolerante. Todos os valores estão inter-relacionados. De fato, eles constituem apenas um único valor - o valor por uma mente simples, tranquila - visto sob diferentes pontos de vista. Todo valor leva a pessoa a ficar consigo mesma. A vida torna-se simples. Uma mente que usufrui de valores assimilados é uma mente pura. Essa mente será capaz de apreciar o fato de que é ananda, quando isto lhe for revelado ou mostrado. Essa pessoa está qualificada para aprender e apreciar o autoconhecimento", diz swami Dayananda em seu texto Valores: Diretrizes Para a Ação.

Glaucia Cantergiani

3 comentários:

  1. Gostei muito, Glaucia. Tenho essa visão instintiva em mim, talvez trazida de outras existências, mas é um exercício continuo conseguir pratica-la. Essa é uma das características do nsso aperfeiçoamento aqui. Bj. Namaste.

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    2. Oi! Penso que é isso mesmo... Muitas coisas já sabemos. Ás vezes, trazemos conosco muita sabedoria há tempos, aí, quando nos deparamos com as informações, elas simplesmente fluem e se acomodam facilmente em nossas mentes. Grande bjo!
      Namaste, Glaucia

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