OM MANI PADME HUM

“As pessoas ficam doentes física e mentalmente. Para alguns, a vida é apenas um retardo para a morte; para outros, a morte é mais bem-vinda que a vida. Alguns levam uma vida miserável, incapazes de encarar a morte; outros se suicidam, por serem incapazes de encarar a vida. Estas experiências fazem você crescer por dentro. Se Deus não fez este mundo apenas para o sofrimento, e, se houver algo mais (e eu intuitivamente pressinto isso), eu o descobrirei."

Swami Sivananda

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O PROCESSO DIGESTIVO NA VIDA DE YOGA


          Pensando na palavra digestão, imediatamente nos vem à cabeça o funcionamento complexo e perfeito de nosso aparelho digestivo, as liberações de enzimas, as quebras das moléculas dos alimentos físicos que ingerimos, a absorção feita por etapas através dos nossos órgãos de forma tão integrada e sincronizada. Um milagre! É fácil termos acesso a esse aprendizado em qualquer instituição de ensino uma vez que esta informação é disponibilizada nos diversos curriculums escolares. E, quando tomamos consciência do processamento de alimentos sólidos e líquidos em nossos organismos, muitas vezes, nos interessamos mais sobre o tipo e a qualidade dos alimentos que vamos ingerir. Mas, isso basta para sermos saudáveis? Basta-nos aprender tão somente sobre a digestão física? Como funciona a digestão das nossas emoções e sentimentos? Ou, não os digerimos?!

 

            Falta-nos estudar sobre o processamento dos alimentos sutis. Os pensamentos, as emoções, as memórias, as experiências vivenciais do dia-a-dia; toda sorte de alimentos sutis que ingerimos, querendo ou não, mas que também precisam ser digeridos em nosso Ser. Talvez, falando de forma generalizada, este aspecto seja o que mais diferencie os povos do ocidente da maior parte dos povos do oriente. Quando a espiritualidade, não necessariamente a religião, caminha junto com a vida de um povo, o ser humano aprende desde muito pequeno a conhecer-se como um todo, o que é visível e palpável em si e o que é invisível e oculto também. Não é porque não visualizamos o processamento de toda a complexidade de pensamentos que brotam em nossas mentes que seus efeitos sob nossas células e órgãos deixam de existir. E quão valioso seria se pudéssemos ver uma nação inteira se conhecendo por dentro, por fora, em volta e além!
            De que maneira podemos cuidar da nossa digestão sutil? Certamente, existem várias formas e práticas espirituais à nossa disposição com o objetivo de nos fornecer ferramentas para promover nosso equilíbrio mental e melhorar nossa qualidade de vida, mas para cuidar da digestão sutil, todas devem passar pelo conhecimento da mente e pelo real conhecimento de Quem Eu Sou. Não podemos escolher todos os alimentos sutis, nem modificar a natureza dual da mente humana, mas podemos conhecer este corpo mental tão bem quanto o corpo físico para que possamos escolher os alimentos que iremos ingerir, saber como processar os de difícil digestão que não podemos escolher para, assim, termos algum gerenciamento sobre as situações que vivenciamos e recebemos da vida.



  
Falta-nos aprender corretamente como funciona o lugar do nosso pensar, a nossa mente, que no Yoga encontra-se associado ao corpo sutil, ou skma śarīra. Segundo a ciência do Yoga, esse corpo sutil é constituído pela mente, o intelecto e o prāa, e possui três invólucros que chamam-se vijñanamaya kośa (que nos dá a noção de individualidade e julgamento), manomaya kośa (que nos dá a percepção do mundo exterior como instrumento psíquico da mente) e prāamaya kośa (onde se desenvolve a maior parte da atividade psíquica pela atividade dos chakras). Trata-se de um corpo complexo e sofisticado que nos fornece, portanto, recursos diferenciados para lidarmos com a vida. Através do estudo e autoconhecimento, é possível aprender a utilizá-los a nosso favor para nos alimentarmos melhor e vivermos a vida com sabedoria. Para isso, é preciso haver uma decisão interna firme, um pouco de dedicação e um tanto de abertura espiritual.

 

O homem intelectual, provido de uma mente capaz de investigar e desenvolver tantos conhecimentos, estabeleceu sua visão científica do corpo e da mente na vida humana. O projeto do corpo humano pela visão científica consiste de espaços e estruturas cuja finalidade é manter a pulsação originária da vida humana para que seja possível a realização de atividades especializadas. Sendo assim, no processo inicial de surgimento do corpo físico formam-se as camadas teciduais visíveis (neural, muscular e orgânica) e uma camada hormonal invisível, que são os líquidos que geram e regulam o crescimento, a reprodução, a transmissão de informações, os sentimentos, etc. Através da relação entre essas camadas surgem as experiências diversas como toque, sons, sentidos externos, temperatura, pressão, elasticidade, ritmo, motilidade, etc.. Nossa história pessoal e emocional influencia o desenvolvimento e a expressão da forma humana. O cuidado, suporte e transmissão de experiências (informação sutil) que a família fornece à criança que está se transformando em adulto afetam o desenvolvimento do corpo humano. Se essas informações forem conduzidas na forma de agressões (o que despertará nossos reflexos de defesa), gerarão reações físicas de contração de músculos, suspensão da respiração, entre outras, em nossos corpos; certamente, o processo digestivo sutil estará também automaticamente afetado. Se a agressão for grave e se sustentar por um bom tempo, o padrão de defesa se aprofundará. Sendo assim, os “perigos” internos e externos que vivemos criam reações que mudam nossa forma e nosso funcionamento orgânico geral. E quanto mais persistente for a situação, mais estrutural será esta mudança, atingindo órgãos, músculos, ossos, etc. Isso é o estresse!
Como se não bastasse, temos atualmente inúmeras fontes de informações desqualificadas produzidas diariamente, com muita sofisticação, pelas indústrias do medo (televisão, internet, etc.). Assim, vamos nos alimentando de estresse dia após dia, sem nos darmos conta de que se não fizermos nada para melhorar essa via de alimentação, ou a maneira de digeri-la, acabaremos por sucumbir às doenças e todo tipo de desordens funcionais.
Mas, ainda podemos ir além na visão da mente humana. Segundo os Vedas, o ser humano foi constituído com o desejo constante de alcançar algo (independentemente do que seja) e de manter aquilo que foi alcançado; unir o desejo à retenção/proteção do objeto do desejo. E essa é a fonte de preocupação de todas as pessoas. É da natureza humana estar sempre buscando alcançar algo, seja o objetivo de voltar a fazer exercícios, consertar um vazamento na casa, comprar um carro novo, qualquer coisa; e, depois, estar sempre tentando manter aquilo que alcançou. Isso é fonte de sofrimento constante! Com o estudo do yoga, tomamos consciência da nossa natureza humana, deixamos de reagir à ela e seguimos no caminho que a filosofia nos aponta em busca de uma saída para este dilema: samatvam.
Samatvam é a capacidade de gerenciar os medos e ansiedades provocados pelos desejos. Existe saída para aquele que pode enxergar a porta. Assim, a vida seguirá com seus desafios e obstáculos, nada mudará neste sentido, mas, conhecendo sua própria mente de uma forma mais ampla, além dos limites da psicologia, o indivíduo vivenciará cada situação e aspecto da vida de maneira bem diferente.

E pra ilustrar o que foi dito....


Pause {video} -- A. G. MohanThe mind is like a river. The thoughts are like the various droplets of water. We are submerged in that water. Stay on the bank and watch your mind.
Posted by A. G. Mohan on Sexta, 18 de maio de 2012


     Namaste!

Glaucia Cantergiani

Um comentário:

  1. Glaucia, obrigada por compartilhar esse conhecimento tão valioso! Bjin, Priscylla.

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