OM MANI PADME HUM

“As pessoas ficam doentes física e mentalmente. Para alguns, a vida é apenas um retardo para a morte; para outros, a morte é mais bem-vinda que a vida. Alguns levam uma vida miserável, incapazes de encarar a morte; outros se suicidam, por serem incapazes de encarar a vida. Estas experiências fazem você crescer por dentro. Se Deus não fez este mundo apenas para o sofrimento, e, se houver algo mais (e eu intuitivamente pressinto isso), eu o descobrirei."

Swami Sivananda

Índia: diário de viagem



01/02/2010
Na saída do Brasil, já foi possível captar um pouco do que estaria por vir. Nessa empreitada, estávamos partindo em 6. Seis mulheres a fim de desvendar um país desconhecido, curioso e desafiador. Uma de nossas amigas não havia recebido o passaporte com o visto até o momento do embarque.O passaporte chegou JUNTO com o momento do embarque vindo de São Paulo e, com a ajuda de um iluminado funcionário da TAM, chegou nas mãos da minha amiga já na porta da Polícia Federal. Ufa! Já sinto. Isso é viajar pra Índia. Tudo vai se encaixando no tempo e na hora porque está sendo regido pela Força Maior. Índia, lá vamos nós!!

02/02/2010
Chegada à Paris - Muita alegria, bom-humor e ralação de nós seis pra peregrinar pelas estações de metro até alcançar nosso objetivo: Hotel Kyriad, em La Villete (estação crimé). Levamos 1 hora e trinta minutos baldeando pra cá e pra lá com malas pesadas e, quando encontramos o hotel, surpresa! A reserva tinha sido feita para o dia anterior. Confusões à parte, teríamos de pagar duas diárias para ficar no hotel. Conclusão: chegamos em Paris às 15h, no hotel às 17h e no quarto às 19h. Ufa! Pagamos as duas diárias e fomos para a casa do Pierre Yves (amigo de uma das companheiras de viagem que mora em frente ao nosso hotel) para um delicioso queijos e vinhos (MARAVILHOSO!). Depois, fomos passear por Mont Martre e comer crepe com cidra! Caminhamos pelas ruas de Paris com frio intenso mas muito prazer. Assim, terminou nosso dia! Hora de dormir, mais ou menos 1h da manhã...



03/02/2010
Saída de Paris.
A saída do hotel de volta para o aeroporto foi bem mais tranquila. Pegamos um trajeto melhor na via crucis do metro. Acordamos às 6:15h para sair às 7:00h porque precisávamos estar às 9:00h no Charles De Gaule. Chegamos com calma e tudo deu super certo, apesar da panacéia: tira mala, põe mala, sobe escada, desce escada entre as estações.

Fazendo check-in para Doha.
Começamos a sentir o clima mais denso e severo do mundo árabe. Mulheres envoltas em muitos lenços na fila do check-in, vários indianos, muitos muçulmanos e pouquíssimos estrangeiros diversos como nós! Na passagem pelo raio X, vasculhação total. Todo mundo tirando sapato, revista geral nos corpos e objetos de higiene e beleza tirados da bolsa pra serem embalados em sacos plásticos.
Estamos agora dentro avião, uma excelente aeronave (acho que é um airbus) aguardando a decolagem rumo à Doha. São 11h aqui em Paris e chegaremos às 19:20h (horário de Doha).
Chegamos ao Qatar. Passamos algumas horas no aeroporto. Tempo suficiente pra sentir o clima e o estilo de Ser no universo árabe. Aeroporto grande, belo, cheio de gente, lotado de árabes de todos os tipos. Homens diversos de todas as culturas e estilos árabes, usando todos os modelos de turbantes existentes. Mulheres com lenços cobrindo a cabeça e muitas de burca (somente olhos descobertos). Foi uma passagem interessante, mas acabamos de embarcar no avião e, finalmente, estamos prestes a decolar para Delhi. Horário local no Qatar: + ou - 22h. Horário previsto pra chegar em Delhi: 03:45h (ai!!). É uma saga! Estamos todas bem-humoradas e felizes, apesar de muuuuuiiiito cansadas. Hoje não teve banho!
Pra encerrar: o fuso da França para o Qatar é de 2 horas e do Qatar para a Índia são + duas horas e meia (acabei de ver no avião, são 22:18h no Qatar e 0:48h na Índia). Assim, a gente vai aumentando a distância do nosso Lugar gradativamente... Agora, é dia no Rio.


Vôo Qatar-Delhi.
Ao embarcar, conhecemos Eneas, um brasileiro que mora na Alemanha e estava seguindo para Delhi pra encontrar um grupo que ele + algumas pessoas do Brazil iriam conduzir pela Índia. Ele já foi diversas vezes à Índia, por isso nos deu algumas dicas de hotéis. Dez!
Foi um vôo inusitado. Muitos muçulmanos, indianos, árabes, poucos como nós. Um carinha com sua família (mulher e filha) ficou assediando algumas de nós (melhor dizendo, todas as estrangeiras que estavam a sua volta) o vôo inteirinho. Pior: com a anuência da mulher dele. O cara era muçulmano. No finalzinho do vôo, foi ao banheiro, trocou de roupa, saiu perfumado + calça jeans modernosa + sapato branco novinho em folha. Resultado: começamos a acreditar que ele pretendia aumentar seu harém, a gente se divertiu a viagem inteira!

04/02/2010
Atenção! Estamos aterrissando na Índia, em Delhi.
Estamos no aeroporto de Delhi desde as 6h aguardando pelo vôo para Dehra Dun. São 9:10h agora e ainda vamos ter de aguardar até as 11:20h (hora prevista pra chegarmos. O vôo dura 1 hora) pra realmente pisarmos na Índia.
No momento do check-in para Dehra Dun, um episódio tenso. A última integrante do nosso grupo (apelidada de o "sexto elemento") descobriu-se sem a passagem para Dehra Dun (falha da operadora de turismo que não comprou esse trecho pra ela). Mas, como tudo tem acontecido até então, havia lugar no vôo (apesar de a pequena aeronave ter partido lotada) e ela saiu do check-in pra comprar a passagem. Detalhe: pagou quase a metade do valor que nós pagamos! Tudo certo. Estamos TODAS exaustas. Até agora, desde a saída do Brasil, devo ter dormido no máximo 8/9 horas ao todo.
Muitas especulações, conversas com brasileiros que encontramos no aeroporto e um pouco de apreensão quanto a o que vamos encontrar, em termos de falta de higiene, pela frente...

Chegada em Dehra Dun.
A chegada em Dehra Dun significou nosso primeiro contato com a Índia. Até então, de Delhi pra lá, só havíamos circulado "confortavelmente" entre aeroportos, mas, ao sairmos do minúsculo aeroporto de Dehra Dun, já nos deparamos com o fato de nosso taxi não estar lá nos esperando. Fiquei um misto de nervosa e preocupada. Tivemos que partir para a ação, negociar com um bando de taxistas indianos, tanto um carro grande (onde coubéssemos as seis com as respectivas malas) quanto um preço melhor (sentimos que o preço  estava inflacionado). Não teve outro jeito senão nos render à unica possibilidade às nossas mãos. Aí, começou a verdadeira aventura. Foi um choque pra todas nós: um taxista que não falava inglês e, que depois viemos a perceber, não sabia ler, uma direção completamente enlouquecida e nossos corações nas mãos. Falávamos com ele sobre o endereço e o ashram, que fica em Rishikesh, e ele nada respondia, nos olhava e balançava a cabecinha para um lado e outro, meio em forma de oito. As ultrapassagens mais absurdamente ousadas que já vi até hoje. Muita sujeira, muito "bicho estranho" (vaca, macaco, corvo) espalhados pra todos os lados e, assim, fomos como que participando de uma corrida maluca. A cada curva uma buzinadinha. Até o fim do percurso, que durou cerca de 45 minutos, milhares de buzinadinhas. Chegamos, enfim, e foi um alívio constatar que nossa reserva estava feita de fato e o ashram existia! Estamos em Rishikesh!!!!


Chegamos ao ashram na hora do almoço, e o primeiro contato com a comida indiana apimentada sem dó nem piedade foi imediato. Fomos para o quarto e aí começou o meu processo...
Senti uma angústia cortante dentro do peito. Medo, nojo, frustração, estranheza. Foram momentos duros. A comida não desceu, travei o plexo.
Fui enfrentando os sentimentos e, à tarde, fui surpreendida pelo primeiro ritual na Índia, o Aarti. O ritual do fogo, realizado diariamente às 17:30h na beira do Ganga (Ganges) e no decorrer do por do sol. É mágico e estranho ao mesmo tempo. Muitas pessoas sentadas nas escadarias que descem até o Ganges e o ritual: fogo queimando, muitos mantras, bhajans, uma cantora puxando as "preces musicadas" que também toca o harmônio, os pequenos monges do ashram (crianças órfãs ou desamparadas que lá residem, estudam e  desenvolvem espiritualidade) cantando devocional e emocionadamente. CHOREI MUITO! Depurei muitas coisas com certeza e deixei ali, naquele fogo, imensa parte daqueles sentimentos que a Índia só fez aflorar, mas que estavam dentro de mim.



05/02/2010
Nosso segundo dia no ashram começou com uma aula de yoga às 5:50h! Gostamos da aula, uma mistura de pavanamuktasana e vinyasa. As coisas foram se aprumando ao longo do dia. De repente, nos vimos dentro do centro de Ayurveda do ashram. Fizemos consulta com o médico ayurvédico e começamos um tratamento. Daqui para os próximos 04 dias vou fazer abhyanga, shirodhara, steam, entre outros. Á tarde, mais um ritual, fomos para o entorno do fogo e participamos diretamente do ritual do fogo hoje. Ontem à noite conhecemos Alka, uma linda indiana que dirige o ashram na ausência do swami Chidanand Sarasvati e que nos recebeu com muito acolhimento e doçura. Ela nos convidou a participar da cerimônia. Jogamos nossas cascas, raivas, ressentimentos e invejas (ou seja, os venenos humanos), simbolizados por sementes, direto nas chamas!
Macacos grandes, corvos e vacas são como uma praga na Índia, inclusive no ashram.
Estou me sentindo melhor, especialmente porque falei com minha filha. Estava com o coração meio espremido por conta da dificuldade inicial que encontrei pra me comunicar com minha casa. Agora está mais fácil. Tem uma "vendinha" de uma senhora simpática e um senhor gordinho com uma minúscula cabine telefônica, toda pintada de amarelo, com uma grande imagem de Siva (que está por toda parte), cheia de fios gambearrados dentro do ashram. De lá que eu ligo e pago cerca de Rps 100,00 a Rps 150,00. Estou bem!


06/02/2010
Acordei cedo para a aula de yoga. Agora são aproximadamente 12h e já fiz uma infinidade de coisas: aula, bate-papo no quarto, café da manhã com chai+torradas+banana+uma papa de aveia amarela cheia de temperos, tratamento de ayurveda (uma delícia!) e, neste momento, estou deitada num gramado ao sol na frente da biblioteca do ashram e também do meu quarto. Existe um pátio interno gramado onde as pessoas se deitam para ler e pegar sol. E...  ...acabou de cair umas folhas da árvore e quando fui ver era um macacão andando nos galhos. Bem, voltando ao assunto, estou pegando sol pra aquecer o corpo. Aqui faz muito frio nessa época! Mas, os dias têm sido iguais: antes de clarear (quando chego na aula de sakti yoga) está ventando muuuiiito, as árvores balançam demais e um indiano fica passando com uns burrinhos pra lá e pra cá ao som dos sininhos pendurados em seus pescoços. Depois, o sol começa a surgir e o vento vai parando. No meio do dia o sol é bem quente, e o céu fica bem limpo. À tardinha, vai caindo a temperatura e começa uma suave brisa gelada quando chega a noite na beira do Ganges. Todos os dias assistimos a noite chegar de frente para o Maha (grande) Siva e para o Maha Ganga!


Estou me preparando pra dormir, mas fiquei com vontade de fazer alguns registros antes. Hoje, fizemos nossas primeiras investidas pela cidade. Encontramos uma brasileira, Renata, que está viajando sozinha desde meados de janeiro por tempo indeterminado e está pela segunda na Índia. Ela nos convidou para irmos ao centro de Rishikesh. Pegamos um tuc tuc, que coube nós sete, e foi uma aventura divertida! Estamos começando a relaxar com as tamanhas loucuras deste intenso, louco, incoerente, mas terno país. Voltamos do centro direto para um ashram de um guru brasileiro que traz, regularmente, muitos brasileiros e alguns estrangeiros pra cá. Havia cerca de 200 brasileiros lá desta vez. Fomos para um sat sangha com palestra, mas todas dormimos na palestra. Então, preferimos sair. O guru não tinha carisma, na minha opinião, era meio repetitivo e não colocava as palavras com a "graça" de um verdadeiro guru. Mas, a ida ao ashram serviu para nos mostrar um bairrozinho super gostoso, vizinho ao nosso, chamado Lakshman Jhula, que é também o nome da segunda ponte, para cima, sobre o Ganges.




Em Lakshman Jhula, descobrimos um paraíso: um bar/restaurante com diversas comidas mais ocidentalizadas, cheio de gente bonita e descolada, todos gringos, na beira do Ganges. Lá, eles oferecem o menu "German Bakery". Então, quando estiver na Índia e vir uma plaquinha num restaurante onde se lê German Bakery, significa que você está salvo! Sentamos, degustamos e voltamos a pé descobrindo novos pontos, novas lojinhas. Ah! As lojinhas!!!! Milhares de lojas, lado a lado, em cada cantinho, vendendo todos os tipos de coisas super legais a preço de banana. Não está dando pra controlar o impulso de comprar. Os produtos são apaixonantes, do meu total interesse e os preços surreais. Outras coisas que concorrem com a quantidade de lojinhas na Índia, são as imagens de Deidades, mini templos, motos, vacas e tuc tucs. É muito de tudo isso! Não ser atropelado pelas ruas é uma grande sorte. As motinhos passam pelas pontes de pedestres e por todos os becos e ruelas se dando ao trabalho apenas de buzinar. As pessoas que saiam da frente! Mas, com tudo isso, há uma enorme simpatia na atmosfera das cidades e ausência absoluta de reações agressivas ou mal-humoradas nos indianos. O que se vê o tempo todo é muita gente sentada nos cantos das ruas, pedintes e pobres, vendedores de tudo, mas todos simpáticos e amáveis. As pessoas aqui são MUITO DOCES!
Vou ficar por aqui...


07/02/2010
Domingo. Hoje não tivemos aula de yoga, mas, ainda assim, não consegui dormir mais porque os ritual dos swamijis das 4:30h aconteceu como sempre. Quando ouvi os sinos tocarem, acordei e não consegui mais dormir.
Falando das surpresinhas boas, descolamos mais um lugarzinho ajeitado e super diferente pra sentar e comer coisas do ocidente (guardando-se as proporções). O lugar é uma mistura de Índia, Tibete e Ocidente. Simples e rústico como a Índia, decorado e servido por tibetanos e com cardápio ocidental (ou, pelo menos, bem próximo...), um restaurante/bar (sem bebida alcoólica, é claro, chamado Little Buda Café. Ah! Tomei o primeiro café na Índia lá.


Apesar de estarmos participando das atividades do ashram, estamos todas vivendo um "impulso consumista" desde que chegamos. Não estamos conseguindo nos controlar porque por todo lugar e rua em que passamos tem sempre mil lojas, ofertas irresistíveis e isso me fez revelar o longo caminho que tenho pela frente. Fácil constatar como o mundo material exerce forte influência sobre nós, seres humanos. O que me consola é, ao menos, estar ciente disso. Estou atenta. Objetivo até o dia 12 (nossa saída do ashram): aquietar mais a mente.
Temos um passeio marcado para o dia 10/02 que promete ser maravilhoso, vamos visitar uma cidade charmosa nas montanhas vizinhas ao Himalaya e também vamos ver o nascer do sol no próprio Himalaya. Espero tirar o dia para contemplar!
O fim deste dia me trouxe algo que esperei muito ao longo do dia: liguei pra casa e falei com todos. Às vezes, sinto-me aflita com a dificuldade de falar com eles. São muitas equações, mas foi uma delícia dar notícias, ouvir a voz deles e saber como estão as coisas em casa.
Vou dormir!

08/02/2010
Hoje não vou fazer muitos registros. O dia foi diferente dos demais. Fiquei mais quieta no ashram!

09/02/2010
Acordamos às 5:30h, com muita chuva, para fazer aula. O frio foi ficando cortante conforme a manhã avançava e a chuva permanecia. O duro foi ter de tirar os sapatos e pisar no chão gelado e molhado para acessarmos o refeitório para o café da manhã. Não se entra de sapatos na grande maioria dos recintos aqui na Índia, inclua-se nisso até as lojinhas...
Aproveitamos pra ficar por perto, explorando as lojinhas da rua de frente do ashram. Quando a gente passa pelas lojas, os vendedores riem simpaticamente e sempre nos convidam a entrar pra conhecer seus produtos, inclusive o barbeiro que ainda oferece massagem ayurvédica, shirodhara e etc.
Aqui no ashram, conhecemos Bascar, que trabalha na recepção e é um fofo! Aliás, todos aqui têm muito boa vontade SEMPRE.


Estamos articulando a continuação da nossa viagem. Arranjamos um operador de turismo interno indicado pela Renata que está acertando o roteiro pra gente. Estamos nos comunicando via email porque ele fica em Delhi, agora só falta recebermos o orçamento e detalhamento dos nossos cinco dias no Rajastão.
Amanhã será nosso passeio pela região. Vou dormir. Ah! Hoje, escrevi para o Zeca e recebi dele uma mensagem linda e expressiva, depois falei com a Juju pelo telefone. Parece estar tudo bem em casa!

10/02/2010
Hoje foi o dia do nosso esperado passeio. Foi um dia intenso, cheio de novidades e surpresas boas e outras nem tanto. Não conseguimos atingir nosso destino. Saímos logo depois do café da manhã na direção de Kunja Puri. Fica numa região montanhosa e a viagem foi cheia de curvas sinuosas, abismos, belas vistas e "rezas" (as ultrapassagens são constantes, a estrada é estreitíssima e cheia de precipícios). Chegamos ao topo de uma montanha onde visitamos o "Temple of Gods", da Era Tetra Yuga. Fizemos uma oferenda para Ganesha conduzida por um senhor bastante idoso com ar de "bruxo" e, de lá, contemplamos a vista dos picos mais altos da cadeia dos Himalayas. Em seguida, partimos para nosso destino principal que era conhecer Mussori. Paramos no caminho para um"café" (na verdade, um café com leite muito ruim) na cidade de Chamba. Todo o percurso foi feito pelas montanhas. Fomos passando por povoados das altitudes e subimos tanto que começamos a ver neve no chão. Antes de sairmos da parada para o café, admiramos mais uma vez a vista do Himalaya com seus picos nevados. Linda vista! Então, seguimos subindo e mais neve foi surgindo. A cidade de Mussori já fica nos alpes tibetanos. Estávamos quase na fronteira com o Tibet. Que legal! Fomos subindo, subindo e, de repente, toda a paisagem ao nosso redor estava coberta de neve. Tudo branquinho. Mas, na estrada, também começou a ter neve alta e fomos seguindo devagar, com muito cuidado, até não conseguirmos mais trafegar. Foi um momento emocionante, pra não dizer tenso, pois o carro derrapou, chegou a atolar um pouco na neve. O problema é que não conseguíamos ir adiante nem retornar. Nosso motorista era muito cuidadoso e gentil e, com muita paciência, conseguiu avançar e manobrar. Assim, com bastante frustração, às portas do Tibet, há 12 km do nosso objetivo, a prometida linda cidadezinha de Mussori, ficou para uma próxima vez! Ficamos tirando fotos e curtindo a neve, e, depois, voltamos!




11/02/2010
Está chegando ao fim nossa estada aqui em Rishikesh. Temos ouvido bastante que nas próximas cidades não teremos a mesma tranquilidade que vivenciamos por aqui. Esta é uma cidade sagrada e não há roubos, pessoas "contaminadas", etc. Hoje cedo, as meninas foram fazer rafting (três de nós). Ficamos eu e as outras duas, ficamos também com a incumbência de ligar para nosso então agente de viagem (Santoshi) pra fechar nossa estada em Jaipur, próximo destino. Ao ligar, fiquei sabendo que os US$ 790,00 que ele nos cobrou não incluía hospedagem, e ele ainda precisaria reservar os hotéis. Sugeri às meninas que fôssemos à agência indicada pelo ashram pra, pessoalmente, tete a tete, tentarmos arranjar hotel e carro para nossos próximos cinco dias na Índia, na região do Rajastão.
Assim fizemos e fechamos tudo. Agora posso ficar mais relaxada! Às vezes, dá uma certa tensão lidar com tantas equações, escolhas e tudo o mais que temos que acertar o tempo todo. Mas, apesar disso, tudo está transcorrendo muito bem. Nenhum problema entre nenhuma de nós até agora, o que não é tão simples quando temos que lidar com ritmos distintos que, certamente, demandam ajustes internos constantes...
Liguei pra casa do skype e falei bastante tempo com todos. Fico feliz por saber que todos estão bem!


12/02/2010
Nossa despedida!
Kumbha Mela!
Maha Shivaratri!
Tivemos a manhã livre. Passeio a esmo, observação das pessoas e rituais nesse GRANDE feriado. Visitei o ashram de Sivananda, assisti a um ritual com mantra contínuo para Siva (Om Namah Sivaya). Almoçamos às 13h e saímos de táxi para Dehra Dun. Deixamos para trás um lugar de aconchego. Já estava me sentindo em casa.
Lá no ashram, conhecemos Bascar, Dubash e alguns brasileiros: André (Floripa), Janete (Curitiba), Dr. Ruguê, entre outros... Acordei mais tarde, na verdade, perdi a hora e, por isso, a aula de yoga! Mas, levantei com vontade de participar e ver o grande evento da Índia: o Kumbha Mela, que é um dos principais eventos sagrados da Índia e acontece quatro vezes num período de 12 anos. Mas, a cada ciclo de 12 anos ocorre o Maha Kumbha Mela que é ainda mais auspicioso. Neste ano, fecha-se um ciclo de 12 anos! No Kumbha Mela, comemora-se as quatro gotas do nectar sagrado que caíram nas cidades de Allahabad, Haridwar, Ujjain e Nashik. Contam as escrituras sagradas que houve uma batalha entre Demônios e semi-Deuses por causa do pote que continha o nectar da imortalidade, os semi-Deuses venceram com ajuda do grande Deus Visnu e beberam do pote, alcançando assim a imortalidade. Porém, durante a guerra (que durou 12 anos), quatro gotas do nectar caíram nessas cidades que são visitadas por milhões de pessoas nessas datas. E Rishikesh fica justamente bem próximo de Haridwar. 


Muitas pessoas nas ruas, muitas migrando com seus pertences e potes plásticos vazios para levarem água do Ganges. Muita gente se banhando no Ganges, mulheres com seus saris e homens de cuecas. Estava muito frio, mas o banho no Ganges no dia de hoje promete a imortalidade para a alma. É muito sagrado e auspicioso!


Quando foi chegando a hora irmos, uma certa tristeza foi se instalando. Já estava gostando MUITO do lugar e as pessoas já eram familiares. Todos os dias fazíamos as refeições com as mesmas pessoas e, embora não seja permitido conversar no refeitório, sempre trocávamos algumas informações com os que lá encontrávamos. Senti-me um pouco triste ao deixar o ashram, Rishikesh e o Ganges!
Estamos agora voando para Jaipur. Pegamos o vôo com atraso às 18h quando deveria ter saído às 16:20h!

13/02/2010
Hoje foi nosso primeiro dia em Jaipur. A cidade é grande e com forte influência dos desertos do oriente. O lugar é seco, como era também Rishikesh, mas bonito pelas construções em arquitetura árabe. 
Visitamos o Amber Palace, do século XVI. Incrível! Foi impressionante! Depois, almoçamos num restaurante típico indiano. As comidas que já experimentamos até então: veg kofta (espécie de almôndega vegetariana com muito molho picante) + navrati (não sei explicar!!). Fizemos negócio com um motorista de tuc tuc, o Mansur, que nos levou pra todos os cantos da cidade durante o dia todo hoje e nos levará no nosso próximo dia em Jaipur. Mas, só cabem três de nós em cada tuc tuc, então, temos o pai dele como segundo motorista num segundo tuc tuc nos conduzindo pelo trânsito doido desta cidade. Vacas, camelos, elefante, muitas motos, milhares de tuc tucs e pedestres se espremem querendo passar TODOS, ao mesmo tempo, nos bonitos portais espalhados pela cidade. Ou seja, uma rua de cerca de três/quatro vias converge para um portal  com uma via, depois, "desengargala" de novo. E assim vai!!


Aqui no hotel tem um terraço com restaurante (onde ficam apenas dois quartos de hóspedes, e esses são os nossos quartos). É um jeito diferente e interessante de se hospedar. Tem cerveja que recebe o mesmo nome da empresa aérea, Kingfisher. É muito raro ver cerveja ou qq bebida alcoólica por aqui. Na verdade, é o primeiro lugar em que vejo! Quando chegamos, com fome e à noite, resolvemos sentar e pedir. Advinha?! Kofta e Navrati + naan (é o pão que acompanha tudo o que a gente come, parece árabe, mas não é). Nosso garçom nos causou pânico e, depois, piedade.Ele era tão sujinho e descabeladinho, mas ao mesmo tempo tão bonzinho!!! Aos poucos vamos nos acostumando...
Antes do palácio, andamos de elefante. Foi uma experiência interessante pelo fato de ver de perto o tamanho do animal. Senti pena de estar em cima dele! Achei um pouco "desumano", mas a curiosidade me fez subir no animal e me sentir no alto de um edifício de 3 andares que anda!!
(nosso terraço!)


Amanhã, vamos visitar uma cidade próxima: Pushkar. Temos carro e motorista contratados para nos levar à Pushkar e, no dia seguinte, à Agra. São mais ou menos duas horas daqui pra Pushkar e quatro horas pra Agra. Vamos ver no que dá...

14/02/2010
(domingo de carnaval no Rio)
Fomos cedo de taxi para Pushkar. O motorista era mudo e ligeiramente tenso, mas educado. Depois, chegamos à conclusão de que ele não falava quase nada de inglês, embora tivéssemos contratado um motorista que falasse. Foi uma viagem sinistra. O trajeto até Pushkar era de 2 horas e meia. Após duas horas de viagem, ele chegou numa determinada cidade que não tínhamos idéia de onde era e parou o carro no estacionamento de um hotel. Paramos e ficamos nos olhando. Então, perguntei a ele se era Pushkar e ele disse, com naturalidade, que não. Era Ajmer. Então, foi aquela sensação de desconforto geral. Depois, entendemos que ele parou nessa cidade (no meio do nosso caminho) pra conhecermos uma famosa Mesquita. A cidade é repleta de mulçumanos e mulheres com os rostos cobertos, muita miséria e a Mesquita (o lado de fora) lotada de pessoas! Esbarramos numa sensação mista de estranheza com surpresa quando encontramos detectores de metais na entrada da Mesquita (depois caiu a ficha: terrorismo!); além do mais, teríamos que deixar as bolsas numa espécie de guarda-volume. Ninguém topou. A energia do lugar era pesada. Seguimos para Pushkar.

 (Ajmer c/ a Mesquita ao fundo)

Em Pushkar, frustração total. Fomos conhecer o templo de Brahma, Brahma Mandir, o único na Índia, e o "lago" de Pushkar. Lá, fomos envolvidas por uma armadilha quando um moleque nos induziu a crer que para visitar o templo seria necessário o acompanhamento de um guia. Apresentando-se como estudante do templo, um Brahmachari, nos guiou em nossa visita. O templo era imundo e mal conservado, mas repleto de fiés fervorosos.
Brahma tem quatro cabeças, cada uma delas virada para cada uma das quatro direções representando os quatro Vedas e todas as direções do conhecimento.
Depois, o moleque nos levou ao "lago" que estava totalmente seco. Um cenário frustrante: um monte de construções típicas da região, aparentando templos, ao redor de um imenso buraco vazio e seco. No pé das escadarias com que nos deparamos havia um tanque com água onde as pessoas jogavam suas flores e oferendas, e faziam seus pedidos e agradecimentos. Nesse lugar, encontramos uns caras se fazendo passar também por Brahmacharis, estudiosos e seguidores de Brahma, pra tentar tirar dinheiro de cada uma de nós. Quando me dei conta, saí fora e chamei uma das meninas, que foi chamando as outras. A constatação foi acontecendo em cadeia. Enfim, tivemos nossa primeira vivência com a "malandragem" tipicamente indiana. Nos safamos e acumulamos experiência!
Voltamos decepcionadas com Pushkar e o com o dia de hoje. Mas, faz parte!

15/02/2010
Agra.
Na noite anterior, houve hesitação por parte de algumas quanto à ida pra Agra. A viagem era longa (4 horas e meia) e o cansaço quase nos fez esmorecer. Porém, em Agra, está o Taj Mahal! Por isso, decidimos manter os planos. A frustração do dia anterior foi tanta que nos fez pensar se valeria a pena viajar tanto num único dia, porque voltaríamos no mesmo dia! Mas, a magia do Taj Mahal nos seduziu; além do mais, apesar de termos a sorte de ter o Cristo ao nosso fácil alcance, não é todo dia que ficamos a quatro horas e meia de distância de uma das sete maravilhas do mundo! Então, encaramos uma viagem muito louca (mais uma vez!). Na auto-estrada (estilo via Dutra, com canteiro central dividindo as vias), volta e meia (na verdade, com muita freqüência), vinha carro, caminhão e tudo o mais na contra-mão. Encontrávamos cavalos e vacas parados no meio da estrada a toda hora e, de vez em quando, caminhões, carros e pessoas parados também no meio da pista para consertos e conversas mil. É surreal!
Porém, tudo isso valeu a pena pra visitar o mais belo monumento que já vi até hoje. É uma obra fantástica e de uma energia incrível! Durante a visita, fomos abordadas por duas famílias inteiras (pai, mãe, filhos, avós e agregados) de indianos pedindo para tirarmos fotos com eles. Os indianos nos admiram com intensidade, e na "lata"! Todos nos olham fixamente como se fôssemos Deusas, e muitos chegam a pedir pra nos fotografar. Se aproximam pra perguntar de onde viemos o tempo todo.
Depois da visita, almoçamos e voltamos. Chegamos de volta à Jaipur mais ou menos às 22h, exaustas mas felizes!!!
 
      (viajando na auto-estrada)



16/02/2010
O dia deveria ter sido mais dedicado a passeios e visitas aos Palácios de Jaipur, mas aportamos numa loja com produtos MARAVILHOSOS e acabamos gastando toda nossa tarde lá. Ainda assim, conhecemos o City Palace (lá, vimos o maior objeto em prata do mundo), almoçamos num ótimo restaurante, o Peacock, e passamos por outros dois palácios, Hawa Mahal e Jal Mahal.

 
(cadeira em forma de pavão do Peacock e Hawa Mahal)

Percorremos Jaipur hoje de "auto-rickshaw" (vulgo tuc tuc) com o Mansur e seu pai. Mansur é um indiano típico só que mais moderno, com um bom inglês e "boa" malandragem. Ele foi super útil, simpático e correto conosco, além de deveras solícito.
Terminamos o dia com nosso jantar de sempre no terraço do hotel, que, por sinal, incluiu nosso momento "acerto de contas". Uma piada! Tantos detalhes! Cada uma com suas pequenas contas pessoais, duas de nós cuidando da contabilidade e, no fim, uma baita confusão pra fazermos o checkout. Confusão em alto astral, diga-se de passagem! Pagamos todas em cartão, separadamente, com valores diferentes. O "boss" teve que vir da casa dele pra passar os cartões às dez e tantas da noite.Cobrança de taxa de 5%, que, com muita discussão (porque não foi prevista), chegou a 3%, e a educação e tolerância constantes do indiano que acertava o pagamento conosco, o "boss". Por fim, sorrisos e brincadeiras da nossa parte e também da parte do boss...

Uma parte: Abaixo, algumas comidas indianas do nosso cardápio particular!
Navratam Korma
Massala mushroom
Veg Kofta
Curry mushroom
Jeera pulao (arroz de jasmim)
Por enquanto...

(especiarias das bancas de rua)

17/02/2010 e 18/02/2010
O dia 17 foi praticamente destinado a viagens.  Saímos muito cedo (às 4:30h) para o aeroporto e o vôo partiu às 6:30h de Jaipur (estava um frio do cão), então, demos início a um dia longo de conexões aéreas até chegarmos ao nosso destino final no sul da Índia, Madurai. Fomos picotando: Delhi - Chennai - Madurai, embarca e passa no raio X, desembarca, embarca e passa no raio X, desembarca, embarca...Voamos até dizer Chega!! Chegamos no fim da tarde e tínhamos apenas uma noite de hotel reservada. O norte e sul da Índia parecem países distintos no sentido da comunicação, além de alguns costumes bem diferentes. Os homens usam sarongues! Sem falar no clima, pois deixamos Jaipur debaixo de um frio cortante na madrugada e chegamos à Madurai com clima de ilha tropical. Muitos coqueiros, áreas verdes e calor. Que calor! Ao aterrissarmos, já era visível a diferença na paisagem, uma região mais úmida cheia de lagos e rios. Mas, a cidade nos assustou um pouquinho, pois o hotel, apesar de ter ótima aparência, ficava numa das ruas típicas da Índia, cheia de lojinhas e sujeira.

Fizemos um sightseeing no dia seguinte e visitamos vários templos diferentes de uma civilização muito antiga, os povos dravidianos. Madurai fica no estado do Tamil Nadu, uma vasta região no extremo sudeste da Índia, onde se fala um dos idiomas clássicos da Índia, o tamil (nome que também recebe o povo daqui). Os tamiles são bem mais negros e habitam em massa regiões exclusivas como o Tamil Nadu, o Sri Lanka, a Malásia e Cingapura (há uma imensa minoria em outros poucos países). 
Mas, na visitação à Madurai, o primeiro e mais gostoso ponto em que paramos foi o Museu Memorial de Gandhi. Lá, pude conhecer melhor toda a trajetória de sua vida e também todo o processo da colonização inglesa que durou muito mais do que deveria, pois desgraçou o país. A independência só aconteceu em 1947, aliás, em 15/08/1947, e 15/08 é aniversário de Sri Aurobindo que fez a sua parte para que a Índia conquistasse a independência. Fiquei sensibilizada e grata por ter conhecido melhor o belo exemplo de uma figura nobre como o Gandhi!

No fim do dia, fomos surpreendidas ao chegarmos ao hotel com o aviso na recepção de que deveríamos deixar nossos quartos. Só havíamos reservado uma diária porque não tínhamos referências sólidas sobre o hotel, porém, havíamos pedido ao agente de viagem, com quem estávamos acertando nossos próximos dias e que tem seu pequeno escritório (na verdade, uma mesinha) no saguão do próprio hotel, para reservar mais uma noite. Ele nos garantiu que o faria. O fato é que o hotel estava full. Conclusão: o gerente conversou conosco e nos concedeu o único quarto disponível (categoria "família") para nos aboletarmos, as seis juntas. Foi a primeira vez que dormimos todas juntas! Falta de cama, de toalha, fila de banheiro, mas... ...tudo se ajeitou!
Terminamos a noite com uma cervejinha "quente" no restaurante do terraço com vista para toda a cidade! Aliás, bebidas alcóolicas são encontradas em hotéis típicos de turistas estrangeiros como nós. Nos restaurantes das cidades, não as vemos.

Dormida curta e partida às 7h do dia 19/02 para Pondy!

19/02/2010
Saímos pela manhã em direção à Pondicherry com parada prevista em Trichy para visitarmos uns templos Tamiles. A viagem foi bem mais agradável do que imaginávamos (até pensamos em comprar passagem de avião de volta pra Chennai e dalí partir pra Pondy), mas acabamos contratando uma big van (meio microonibus) pra 14 pessoas e viajamos com muito conforto. Aliás, o motorista ajudou muito porque foi o mais gentil e simpático de todos, sempre abria a porta na hora de entrarmos no carro e... ...falava inglês. Ele vai nos acompanhar pelos próximos 8 dias!
A parada em Trichy foi interessante. A cidade parece mais bem estruturada do que Madurai. Estamos viajando pela região do Tamil Nadu (que vai até Chennai). Os tamiles têm a pele bem mais escura que a dos indianos do norte, mas as feições são diferentes das dos negros africanos, eles têm traços gentis e doçura no olhar. Em Trichy, visitamos um importante templo de Vishnu (Deus da Preservação). Um grande e majestoso templo, muito antigo (faltam informações em todos esses templos acerca do período histórico de construção, significados,etc.). Havia uma enorme escultura de Vishnu e outra do Garuda (o pássaro mensageiro), além de inúmeras colunas esculpidas em pedra. Na verdade, era uma cidade inteira cercada por muros e vários portais compostos por inúmeras esculturas superposicionadas em forma de torre.



O almoço em Trichy foi um momento hilário. Nosso motorista nos levou a um restaurante de um "grande" hotel, porém, tipicamente indiano. A pergunta foi: Comida vegetariana? Nossa resposta: Sim! Enquanto tentávamos pedir o cardápio, o garçom, um senhorzinho simpático que arrastava os pézinhos para andar, ia trazendo as comidas mais inusitadas sem que tivéssemos pedido. Era uma pilha de seis bandejões, cada um forrado com folha de bananeira e rodeado de mil potinhos com "comidinhas" variadas e estranhas. Depois de muito desconforto e cuidado pra não magoá-lo, chegamos à conclusão que ele deveria deixar apenas uma bandeja e MUITOS chapatis (o pão típico que acompanha as refeições, muito parecido com o naan). Ufa! Comemos e até gostamos (tá bom! Nem todas, mas a maioria gostou) de vários potinhos. Os nomes? Só Deus sabe... Uma coisa é fato: muita pimenta SEMPRE!
Seguimos viagem, passamos por Villapuram, a cidade mais próxima de Pondicherry onde há estação de trem, e, depois, 38 km depois, finalmente Pondicherry!!!
A Chegada.
A chegada à Pondicherry foi permeada por uma atmosfera de expectativas. Expectativas positivas, mesmo que controladas, quanto à cidade (imaginávamos encontrar uma cidade mais limpa e com opções gastronômicas mais receptivas) e quanto ao "Encontro" (da minha parte).
Vim trabalhando a minha mente pra que a expectativa não fugisse à realidade, afinal de contas estamos na Índia, mas foi difícil afastar certa ansiedade.
Os arredores de Pondy, de fato, não negam a localização geográfica, porém, nas proximidades da praia e em toda a região do ashram, as ruas são limpas e urbanizadas (urbanização na Índia é algo que praticamente não existe). A  arquitetura, com forte influência francesa, é bela e bucólica.
Voltando um pouco mais: chegamos ao hotel, deixamos as coisas e eu perguntei aonde era o ashram. Já era finalzinho da tarde e escureceria muito em breve. A resposta foi satisfatória, mas nem tanto. O ashram fica há 6 quadras do hotel. Seguimos por uma rua longa (Rua Sri Aurobindo) que fica quase em frente ao hotel; adoraria estar um pouco mais perto, mas nada tiraria minha felicidade de estar a uma distância caminhável do Espaço Sagrado, casa do querido mestre Sri Aurobindo e da alma sublime conhecida como Mãe.
Lá fomos nós caminhando para o ashram com a informação de que estaria fechado (o horário de fechamento é às 18h).
O Grande Presente.
Chegamos buscando e varrendo os prédios e construções nos arredores com olhares curiosos. Um enorme pano indiano servindo de toldo surgiu no alto de uma rua cobrindo quase todo o quarteirão, pessoas amontoadas e pequenos grupos espalhados em frente a uma porta de madeira, lá estávamos nós: "Sri Aurobindo Ashram". Fui entrando, um pouco apreensiva e emocionada. A porta estava aberta e um senhor, com muita simpatia, indicava o caminho. Entrei num verdadeiro jardim. Flores e mais flores arrumadas criteriosamente formavam corredores por onde passavam os visitantes. Esse caminho nos levava a um jardim num pátio central com uma majestosa árvore plantada bem no meio. Logo abaixo, aos pés da árvore, as sepulturas de Sri Aurobindo e da Mãe, o samadhi!. O samadhi fica coberto de flores que formam mandalas tão belas quanto singelas. A verdadeira expressão do amor! Lindo!! Pessoas sentadas ao redor e também em todos os cantos meditando, rezando, sentindo. Silêncio absoluto! A emoção aflorou e caí num gostoso pranto. Chorei de alegria, amor, gratidão. Que presente! 
 

 

 
(símbolo da Mãe aceso sobre a porta de acesso à noite)


20/02/2010
Acordamos e minha vontade era correr para o ashram, mas contive a ansiedade e fomos fazer um reconhecimento da cidade: Boat House, Jardim Botânico (muito seco e sem flores nem plantas ornamentais), Bharat Park, praia, região do ashram.
Estou cansada e preciso dormir, pois amanhã vou madrugar!

21/02/2010
Aniversário da Mãe.
É isso mesmo! Dia 21 de fevereiro é o dia do aniversário da Mãe e eu estava lá! Sem ter planejado, tudo se encaixou de modo que exatamente num dia tão auspicioso para a Índia, especialmente para Pondy, eu estava aqui. Existem dois dias no ano em que os quartos de Sri Aurobindo e da Mãe são abertos à visitação do público, e esses dias são as datas de seus aniversários. A Programação foi acordar às 5:15h, ir para o ashram participar da meditação coletiva no samadhi das 6h às 6:30h e depois entrar na fila para a visitação (às 6:40h). A primeira parte foi conseguida, assim que cheguei na rua lateral do ashram havia um carro estacionado e um homem, alguma Autoridade indiana (com turbante e roupa brancos), saiu por uma porta lateral do ashram e entrou no carro. Nesse momento, fiquei ligada e aproveitei quando algumas pessoas entraram por essa porta, me enfiei entre elas e fui!! Entrei no ashram e logo a porta se fechou. Uma multidão estava do lado de fora e eu teria de participar da meditação ali mesmo, mas tive a Graça de meditar nos jardins internos do ashram a pouquíssimos metros de distância das sepulturas dos dois Mestres. O segundo objetivo já não foi alcançado. Para acessar os quartos era necessário pegar uma senha no lado de fora e quando fui para a fila de distribuição as senhas já tinham se esgotado. Muita, muita gente estava lá. As ruas que circundam o ashram estavam repletas e as filas para entrar infinitas. Não fiquei triste, já recebi muitas graças até então e tudo está perfeito!
Fomos visitar Auroville, outro momento de Magia! Visitamos os jardins de Auroville de onde é possível avistar o Matri Mandir. Não pudemos entrar ou nos aproximar muito. Existe um viewpoint de onde as pessoas contemplam o mandir (templo) na primeira visitação à Auroville. Depois dessa 1a visitação, é possível agendar a visita ao templo por telefone. Assim, quando voltamos, fomos direto para o centro de visitantes e resolvemos tentar o agendamento pessoalmente. Uma de nossas amigas teve a "sorte" de encontrar uma brasileira residente de Auroville que nos deu o "pulo do gato". Ela nos disse para irmos a um portão, em determinado local no caminho do templo, às 14h, pra pegarmos a senha e agendarmos a visita mediante breve entrevista. Assim fizemos e, debaixo de um sol de 40 graus e alguns "quase" desencontros, CONSEGUIMOS! Vamos entrar e praticar concentração (dharana) dentro do Matri Mandir na quarta-feira, 23/02. Estamos todas felizes e ansiosas.
Em Auroville não há exatamente proibições, mas algumas regras e restrições. Entendo esses critérios como necessários para que seja possível manter uma comunidade tão importante e bem cuidada. Auroville é um lindo lugar, especialíssimo, que traduz paz, beleza, pureza, inteligência e modernidade ao mesmo tempo. Senti como se fosse a natureza sutil materializada!

(viewpoint) (Matri Mandir)

 (caminhos em Auroville e a árvore de inúmeras raízes que formam troncos)

22/02/2010
Fomos logo pela manhã para Auroville a fim de explorar a comunidade idealizada por Sri Aurobindo e pela Mãe a partir de uma forte inspiração Divina. Visitamos alguns pontos, pois Auroville é uma "grande cidade", com cerca 2.000 habitantes apesar de não percebermos a existência dessa população e nem de termos a sensação de estar circulando por uma cidade. A impressão é que estamos visitando um grande parque ecológico repleto de verde e ruas de barro. Muito sol, muito calor. Não chove NUNCA! É impressionante como os dias são iguais, não tem chuva de verão nem frente fria.
Visitamos prédios públicos, de arquitetura sustentável e bela, casas lindas, um restaurante maravilhoso (Solar Kitchen), no qual não pudemos comer porque não aceitava $. Em Auroville, não há quase circulação de dinheiro, troca-se serviços! Os aurovillianos fornecem seus números ao comprarem algo na cafeteria, restaurante, etc. Ficamos chupando dedo! Ainda assim, o restaurante foi um dos lugares mais expressivos e interessantes em que já estive. Centenas de pessoas, de diversas nacionalidades, cheias de vida, num imenso restaurante comunitário que utiliza energia solar para o preparo de toda a comida. As pessoas também circulam em veículos movidos à eletricidade ou de bicicleta. MARAVILHOSO! 
Fechamos Auroville visitando um local destinado a yoga e terapias afins (Pitanga Hall em Samasti, uma das regiões dentro da comunidade) e acabamos por agendar uma aula de yoga para depois de amanhã, quando entraremos no Matri Mandir. O Espaço é puro charme e harmonia!
(ponto de abastecimento de energia para motos e afins) 
   (construção na região dos prédios públicos de Auroville)

Fechei o dia de volta à Pondicherry assistindo a uma palestra sobre a fundação e os trabalhos do ashram deste então, na verdade, era uma história documentada incluindo gravações originais com a voz da Mãe num enorme pátio interno dentro de uma das escolas mantidas pelo ashram. Cerca de 300 pessoas estavam lá sentadas, numa noite enluarada, todos na completa escuridão da noite e o palestrante proferindo lindas mensagens da Mãe sentado ao fundo numa mesinha com um pequeno abajur e uma tela de projeção mostrando imagens que marcaram os últimos anos de conquistas e avanços da Sri Aurobindo Society.
O céu estava cheio de estrelas. Terminada a paletsra, abriram-se as portas do ashram (que fica em frente à escola) para quem quisesse visitar o samadhi. Uma benção! Estou me sentindo muito agraciada...

                                      


23/02/2010
"Day Off"
Hoje ficamos de bobeira em Pondicherry. Fomos para a Internet pela manhã pra colocar os assuntos em dia e reservarmos nossos próximos hotéis depois de sairmos de Chennai by plane rumo a Varanasi e Delhi.
Depois, fomos circular pela cidade, trocar US$, comprar "coisinhas" (a Índia é uma sedução constante ao consumo!) e, no fim da tarde, fiquei um tempo em paz, praticando conexão comigo e com o Mestre diante do samadhi. Foi minha despedida do ashram. Passei uns bons minutos ali sentada em frente ao samadhi...

24/02/2010
Matri Mandir.
Dia de deixar o hotel e seguir para Auroville, com as malas no "nosso" carro, pra entrarmos no Matri Mandir. Estávamos felizes com esse acontecimento. Não sei se já falei do "nosso" motorista, mas vale o parênteses. Na Índia, é muito difícil se comunicar porque o inglês deles tem um sotaque carregadíssimo e nem todos falam inglês. Somando-se a isso as diferenças culturais enormes (modo de se expressar e conceber as coisas), aí danou-se! A comunicação fica truncada em grande parte das vezes, é preciso ter PACIÊNCIA. Mas, os indianos não se estressam e no final de qualquer animosidade sempre sorriem e demonstram bom humor. Tudo isso foi dito pra explicar porque nosso motorista merece estar nestes registros. Já convivemos com vários motoristas e pessoas até então, passamos por momentos delicados, de certa forma, difíceis. Mas, nosso atual motorista (é incrível, mas não sabemos o nome dele!) é um fofo! Ele está nos acompanhando desde Madurai (19/02), dormindo no carro que fica estacionado no hotel durante a noite, e vai nos conduzir até Chennai (26/02) quando nos despediremos dele. Já planejamos nossa foto com ele e uma boa gorjeta! Ele nos "serve" sempre com respeito, boa vontade e doçura. Foi o único que abriu a porta pra gente entrar e sair da van! Conforme os dias vão se passando, ele vai entendendo melhor nosso jeito e nossa comunicação vai de vento em popa. É um alívio! Ele é um típico tamil, de pele bem escura com feições doces e simpáticas (meio parecido com os javaneses, polinésios, etc). 

 
(nosso carros e nossas malas!)

Então, fomos cedo para a visitação interna do Matri Mandir de mala e cuia. Ele ficou no carro cuidando das malas porque depois da visita seguimos para o nosso próximo destino, Mamallapuram. Assim foi feito. Chegamos em Auroville, assistimos a um video sobre o grande projeto e depois seguimos num pequeno ônibus para a região do Matri M. no centro de Auroville. Lá, entregamos nossas senhas e, depois de uma linda e clara explicação sobre o propósito e significado do Templo fornecida por um americano residente desde 1974,  recebemos também algumas orientações sobre como proceder durante a visitação e seguimos adiante. O grupo era grande, cerca de 40/50 pessoas. Foi uma surpresa pra mim saber que tantas pessoas caberiam dentro da "grande esfera de ouro". Entramos aos pouquinhos, em fila indiana e, principalmente, em silêncio total e absoluto.
O interior do Matri Mandir é simplesmente inimaginável! É lindo, mágico, puro, limpo, belo! Tudo em mármore branco. A  gente passa por um ponto em que recebemos meias brancas limpíssimas para calçarmos a fim de que tudo lá dentro permaneça puro e limpo.
Toda a esfera é climatizada interiormente. A luz que incide dentro é indireta e deliciosa. Existe uma rampa que contorna a esfera por dentro e vai circundando e subindo até nos levar à câmara onde sentamos para meditar.
Esse é o lugar mais lindo e impressionante que já vi! Uma grande bola de cristal no centro, carpete branco forrando todo o chão, almofadas brancas espalhadas perfeitamente (de modo que todos que ali estão possam se sentar de frente para a bola de cristal) pelo chão e um raio de luz solar caindo do topo e incidindo diretamente sobre o cristal. É incrível! Nos foi dado um tempo de 15 minutos para sentarmos e nos concentrarmos (praticarmos dharana), e depois sairmos um a um. Esse foi o presente do dia!
Depois, exploramos um pouco mais a região nos arredores do Templo, estivemos no anfiteatro (onde houve a grande cerimônia de inauguração de Auroville em 1968), conferimos os jardins que ainda estão em fase de construção e fomos contemplar a árvore sagrada, que na verdade é o centro Divino de Auroville, a Banyan Tree.

  
 
(visitando o Matri Mandir)

Terminada a visitação, seguimos rumo à Mamallapuram (a cerca de uma hora ao norte).
Chegamos nesta pequena cidade e nos sentimos como se tivéssemos nos transportado para os anos 70. Muitos turistas europeus, jovens com dread no cabelo, centenas de lojinhas lado a lado, restaurantes transadinhos (guardando-se as proporções nível Índia). Nosso hotel fica a uma rua de caminhada da praia (mais ou menos 500m), e lá fomos nós ver o mar. Nossa decepção foi ver uma praia gostosa, com uma brisa perfeita (em intensidade e temperatura), barcos de pescadores formando uma paisagem bucólica, um belo templo Pallava do século VII D.C. numa ponta avançada na beira do mar, mas uma areia imunda. Tem vaca, cabra, cachorro e lixo. Uma pena! O indiano não utiliza suas praias para o banho, com raras exceções. Apenas uns gringos se banhavam corajosamente em frente ao hotel onde estavam hospedados à beira mar.
Voltamos para explorar melhor a ruazinha de lojinhas que dava na praia (pela qual chegamos) e descobrimos uma rua transversal a ela com um restaurante/café bem agradável. A Índia é o país mais cheio de contrastes que imagino existir no mundo! Essa ruazinha transversal é completamente limpa, toda varridinha. Bem diferente de todas as ruas que a cercam. Enfim...   Isso é a Índia!
Falei com a Juju pelo skype e ela me viu pela primeira vez desde minha partida. Foi uma delícia falar e ver ao mesmo tempo!

 
(a ruazinha que dá acesso à praia e a "vista" na chegada à praia)

  
(corvos, vacas, cachorros e língua negra...  E, o templo da época da dinastia Pallava ao fundo)

25/02/2010
Já começamos a falar do nosso retorno com mais freqüência, estamos na reta final. A convicção de ter deixado uma vida maravilhosa e uma família linda é um fato e a saudade existe, apesar disso, há algum tempo sinto necessidade de estar um tempo comigo, conhecendo e vivenciando culturas distantes. Isso realmente me fascina! Por isso, ainda estou confortavelmente PRESENTE aqui.
Mas...  Hoje exploramos melhor Mamallapuram e visitamos um parque repleto de monumentos históricos, todos da era 600 D.C. Cavernas, colunas e imagens de Deuses, Deusas e animais escavados em gigantescas rochas. Trabalhos da Dinastia Pallava, aliás, esse é o nome do nosso hotel "Pallava Dinasty". O melhor hotel em que já ficamos até então, por ser limpo e novo.
O calor nos maltratou um pouco, até prejudicou nossa exploração pelas esculturas. Mamallapuram é um reduto de escultores em pedra. Encontramos vários deles em lojas cheias de objetos esculpidos em pedras de toda sorte por toda parte. O resto do dia foi destinado a bater perna, hang out! Amanhã, vamos partir pela manhã.

  

Agora vou dormir!
Voltei. Antes, preciso registrar uma experiência que vivenciamos no final desta noite. Conhecemos um homem, dono de uma lojinha cheia de produtos tibetanos, que além de muito simpático é um verdadeiro bruxo. No dia anterior, estivemos na loja e ele fez uma demonstração de "leitura dos cakras" com sinos tibetanos em uma de nossas amigas. Nessa leitura, ele diagnosticou que seu terceiro cakra estava travado e que isso era consequencia de um fato muito antigo, cerca de 15 anos atrás. Depois, disse que se ela quisesse poderia trabalhar na cura, fazer o desbloqueio do manipura cakra (3o cakra), com os sinos tibetanos sem cobrar nada. Ela hesitou naturalmente, mas combinou de voltar. Senti sinceridade nele e todas as suas colocações eram coerentes e demonstravam bom senso. Voltamos hoje pra ver e comprar seus produtos e nossa amiga resolveu deixar que ele fizesse o tal reequilíbrio dos cakras na nossa frente. Durante cerca de 15 minutos ele bateu sinos colocados em pontos estratégicos, nas laterais do corpo de nossa amiga que permanecia deitada no chão. Havia um grande sino colocado sobre o plexo solar. Todas nós estávamos alí assistindo quietas. Senti muita seriedade e uma vibração incrível no ambiente. O indiano/tibetano demonstrou certo desgaste energético a certa altura. Eram diferentes sinos, diferentes sons e um quartzo especial colocado pouco abaixo da garganta para o desbloqueio intenso da energia em todos os cakras. No fim, ele confirmou que o bloqueio era intenso e que estava ligado a um fato ocorrido há 15 anos, e relacionado com os pais (mãe ou pai). O fato é que ele não sabia, mas minha amiga perdeu o pai há exatos 15 anos. Foi incrível testemunhar o quanto é possível VER quando se está realmente conectado, apenas utilizando instrumentos oriundos da natureza, nesse caso, o metal e os sons. Qualquer uma de nós que tivesse sido submetida à leitura diagnóstica, certamente, teria descoberto algum registro em nossos corpos físico/sutil. O nome dele escapou, mas a pessoa não. Aprendi um pouco mais sobre missão de vida e "dons divinos", pois toda a retórica do nosso amigo era que jamais cobraria por um trabalho que lhe foi entregue como missão, caso contrário, não funcionaria; a menos que fosse sua única possibilidade de sustento, o que não era o seu caso porque ele ganha vida como um comerciante e se sente muito satisfeito com isso.
Fim!

26/02/2010
Viemos pra Chennai logo de manhã. Se pudesse imaginar o que seria, teria sugerido sairmos à tarde, aliás, esse era o plano inicial...  A chegada em Chennai assustou um pouco porque a cidade é bem maior do que pensávamos. Muitas rodovias expressas e movimentadas, e todas as desvantagens de uma cidade grande. Ficamos num hotel nojento. Nojento em todos os sentidos, porque além de ser sujo as pessoas eram sinistras. Não tínhamos como procurar outro lugar porque, nesse ponto da viagem, estávamos nos despedindo do "nosso" carro e "nosso" motorista. Esse foi um momento à parte. Ravi (agora já sabemos seu nome!!) nos deixou no hotel, aguardamos quase uma hora para o check-in e, então, ele nos levou à pé até as principais lojas de sares (e etc.) da movimentadíssima rua transversal à do hotel. Não dava pra ir de carro porque, palavras do Ravi, "além de ser perto, se nos deixasse e fosse embora com o carro, poderíamos perder a referência e nos perder ao retornar". Um fofo! Caminhamos em fila indiana com Ravi à frente, disputando espaço com carros, motos, pessoas, tuc tucs, bichos,etc, pela beira da rua e, ao chegarmos em frente à loja de Departamentos de oito andares, foi a hora da despedida. Apertos de mãos, agradecimentos e olhares de pezar. Todas sentimos pena por estarmos nos despedindo do Ravi, mas ele, claramente, também nos revelou os mesmos sentimentos. Começou a andar na direção contrária e olhar pra trás, andava mais um pouco e olhava de novo, andava e olhava, um olhar nítido de afeto e preocupação. Essa foi a minha impressão. Ainda restaram suas últimas palavras: "Liguem pra mim quando voltarem para o hotel para eu saber que vocês chegaram bem". Ele voltou para Madurai naquele mesmo momento, cerca de nove horas de viagem. Ravi tem 26 anos, mas parece ter uns 36. Apesar disso tem boa aparência. É solteiro e trabalha conduzindo turistas pelo sul da Índia.
(O harem de Ravi!!)
Bom, circulamos um pouco e nos sentimos exaustas e sufocadas pelos excessos nessas grandes lojas. As lojas são repletas de sares de todas as cores e tecidos, andares inteiros dedicados a isso. Outro ponto forte de compras são as joalherias. Várias e enormes! Jóias de toda sorte, em ouro amarelo, branco, platinum, prata, desenhadas, rendadas, com pedras e diamantes. Mas, pra mim, foi over. Sem lugares simpáticos para comer ou tomar um chai, acabei decidindo voltar para o hotel mais cedo do que imaginava. Uma de minhas amigas me acompanhou e, no trajeto de volta, um indiano nojento colou atrás da gente pronunciando palavras obscenas. Ela deu uns BERROS em alto e bom tom, o que conteve o indivíduo por alguns momentos, mas o que realmente nos safou foi entrarmos na ruazinha do hotel que estava logo adiante. Não saímos mais. Tentamos jantar num local indicado pelo guia de viagens, mas o acerto que tentamos fazer com taxi (através do hotel) também falhou. Na hora H, o boboca do taxista que veio nos pegar numa mini  "combizinha" disfarçada de carro quis cobrar um excedente por sermos 6 em vez de 5. No entanto, no carro dele só cabiam 5, e espremidas. Desistimos e resolvemos jantar num restaurante bem na frente do hotel. Demos sorte desta vez, a comida, indiana, estava boa!
(no interior das mega lojas de sares de Chennai)

O saldo de Chennai pra mim foi a impressão de uma cidade com pessoas nada confiáveis, um lugar de difícil locomoção e nada simpático. Tenho certeza de que outros podem ter vivido experiências totalmente distintas em Chennai, mas se eu decidir aplicar a velha máxima "a primeira impressão é a que fica", não votarei lá jamais!!

27/02/2010
Varanasi ou Benares!
Saímos hoje na madrugada para o aeroporto. A noite foi curta (dormimos pouco) e desconfortável. Nosso destino era Varanasi. Não tínhamos taxi agendado na chegada, então, aquela panacéia!! Chegamos lotadas de bagagens precisando de um carro grande, realmente grande. Conversa daqui, discute dali... conseguimos! Toda negociação feita na Índia é bem engraçada. A gente sempre ficada cercadas de uns montes de indianos, falando entre si, no idioma deles, discutindo, fazendo acertos, etc. A gente diz o que quer e eles ficam lá se enrolando até que tudo flui e pronto! No início, isso assustou um pouco, mas já estou acostumada agora. Esse é o jeito deles mesmo. Eles vivem aglomerados e falam muito entre si. São muito figuras! Mas, com duas raras exceções ao longo de toda a jornada, sempre nos respeitam e não há desentendimentos ou discussões calorosas, por mais que reclamemos ou barganhemos...  Aliás, vale um parênteses aqui sobre o que é circular a pé na Índia. Em todas as cidades, numas mais intensamente noutras menos, há sempre muita gente abordando os turistas e tentando vender de tudo. Eles são insistentes e se o turista responder algo, ferrou! É grude certo. Porém, não vi nenhum furto ou roubo até então, nem tão pouco indignação ou raiva nos olhos das pessoas frustradas que não conseguiram vender seus produtos ou ganhar suas esmolas. Muitos pedintes e nenhuma agressividade, isso é o que está ficando pra mim.
Varanasi.
O aeroporto é longe da cidade, cerca de 45 minutos. Fomos espremidas num carro tipo Pajero com malas atrás e no bagageiro. Despachamos as malas no quarto, check-in, almoço no hotel e RUA! Sujeira, miséria, muito tudo e a gente procurando um Ghat que pudesse nos dar acesso ao Ganges. De novo, estávamos encontrando o Ganges. Agora, no final da viagem!!

Parênteses pra registro de mais alguns pratos indianos interessantes:
Spplizzing plates (vegetarian mix grills)
Gulab Jamoun (doce delicioso!)
"Meal" (vários molhinhos picantes com arroz na folha de bananeira e mais um creme de legumes)
Noodles (macarrão estilo japonês com ingredientes variados; esse é meio internacional...)

Voltando: Caminhamos por umas ruas, esquerda, direita, em frente e lá estava um Ghat que nos daria o acesso ao Ganges. Comecei a ver várias madeiras estocadas nas laterais da rua, um ar meio sinistro, as escadarias, umas casinhas de madeira em baixo de construção de alvenaria no centro do Ghat e... o Ganges! Na beira do largo e frondoso rio algumas fogueiras, pessoas sentadas em pequenos grupos próximas às fogueiras, então, logo percebi que estávamos num Ghat onde ocorrem as cremações. Um corpo enrolado em tecido laranja e faixas douradas (a cor de Siva). Várias fogueiras e distintas fases de queima, algumas somente em brasas e montes de cinza, outras em plena combustão. Sentei num platô ao lado das escadarias para observar o ritual. Não é permitido fotografar os corpos, nem o processo de cremação. A cena toda foi tão surpreendente quanto simples. Me surpreendi ao perceber que assistir a um corpo cremando ao vivo a cores, e da maneira mais simples e óbvia possível, não é um bicho de sete cabeças. O cheiro não era terrível nem de carne queimando como dizem. Apenas cheiro de fumaça. A paisagem é linda, o rio é lindo. Existe um ar bucólico ao redor que, talvez, atenue a difícil constatação real do que somos de fato, pelo menos em termos de aparência. "Somos" simples corpos físicos que carregam um diamante precioso e eterno.
A pessoa morta fica embalsamada em pano branco por baixo do tecido laranja. Quando a fogueira está montada (diversos troncos dispostos "matematicamente" uns sobre os outros), eles tiram o tecido laranja e colocam o corpo envolto no pano branco em cima da fogueira. Por cima do corpo, alguns troncos mais finos. Na etapa seguinte, um "sacerdote" vestido, na verdade também enrolado, em pano branco circunda o corpo na fogueira algumas vezes e, depois, traz uma palha longa com fogo na ponta. Enfim, ateia fogo na fogueira e o processo toma seu rumo.

(casinhas para acomodação dos corpos e parentes e madeiras estocadas nos burning Ghats)

(Caminhando através do longo calçamento que atravessa os Ghats à beira do Ganges e um Ghat)
(Vista de Varanasi à beira do Ganges)

Não esperei que tudo culminasse num monte de cinzas. A experiência ser vivida ali já tinha sido absorvida. A sensação que dá é que o indiano consegue lidar com a morte como realmente deve ser, de maneira natural e simples. A simplicidade do povo segue toda sua existência.
Em Varanasi, pude presenciar mais um aarti (arati). Varanasi é considerada a cidade mais sagrada da Índia (para alguns, pelo menos uma das mais sagradas). Toda a cidade gira em torno do sagrado e vive basicamente do turismo. Há muitos turistas por lá. O aarti ao qual assistimos também foi à beira do Ganges, o ritual é sempre o mesmo, ritual do fogo, Siva, mas a "cara" é bem diferente. Os ares do Ganges em Varanasi é muito diferente dos seus ares em Rishikesh. Até o clima torna tudo muito diferente, estava fazendo 32o C. Pra finalizar nossa breve visita, percorremos o Ganges, passando por alguns Ghats e saímos (subimos) de volta para a cidade por uma ruazinha lotada de lojas. Um comércio fervilhante, intenso e agitado! Compramos, nos divertimos, enfrentamos multidões em becos e ruelas inacreditáveis, encaramos o assédio dos comerciantes e, por fim, não sabíamos voltar para o hotel. A solução?! Pegamos um tuc tuc e tudo acabou bem!
(Aguardando o início do Arati!)


28/02/2010
Na despedida de Varanasi, no trajeto para o aeroporto, observamos algo diferente nos bagageiros de alguns carros. Com um pouco mais de atenção, foi fácil identificar pela cor laranja que eram os corpos de pessoas chegando para os burning ghats!
Voamos para Delhi!

Delhi - Último Destino.
Os voos nas aeronaves airbus são bem melhores, voamos tanto pela Índia que já sabíamos exatamente o que seria servido pela aeronave. Fizemos apenas três voos de airbus e esse foi o último, pelo menos pela Kingfisher, o resto foi em aeronaves com aquelas hélices nas laterais, estilo teco teco.
Chegamos em Delhi e dessa vez tínhamos um taxi esperando por nós. Uma das amigas ligou de Varanasi e conseguiu marcar através do hotel para o qual iríamos. E a ligação deu certo! 
A primeira impressão da cidade foi bem diferente. Estradas, rodovias, vias expressas e viadutos modernos, ruas arborizadas, um belo e grande parque verde, construções bonitas e bem conservadas. Eis que fomos avançando pelas ruas da cidade e, em pouco tempo, nos deparamos com velha conhecida Índia das ruas estreitas, sujas, cheias de pessoas, lojas e vacas. Fiações amontoadas, emaranhadas, construções velhas e antigas. Chegamos ao Main Bazaar e nos assustamos ao descobrir que nosso hotel ficava no coração da muvuca! Dei uma olhada no quarto assim mesmo e o resultado foi: OK! Não porque o conforto e a limpeza estivessem dentro do nosso critério de satisfação, mas porque estavam dentro do nosso "critério Índia". Ou seja, o mínimo necessário para que conseguíssemos praticar a "abstração".
Nos preparamos para fazer o de sempre, deixar as malas e seguir para a rua. Já tínhamos até um pequeno roteiro dessa vez. Diferente dos outros 95% das cidades visitadas em que íamos seguindo o fluxo das coisas. Porém, fomos informadas pelos funcionários da recepção de que hoje e, principalmente, amanhã está acontecendo um grande feriado em toda a Índia, o Holly Festival, o Grande Festival das Cores. Agora, tudo se encaixou, pois desde Varanasi não paramos de encontrar barraquinhas lotadas de corantes maravilhosamente coloridos. Montinhos e mais montinhos de pó colorido nas mais diversas cores: roxo, pink, amarelo, verde, vermelho, etc. Também estava à venda em todos os cantos uma espécie de espingarda de plástico. Não sabíamos o que representava, talvez os corantes fossem para fazerem as belas mandalas que os indianos desenham nas portas de suas casas todas as manhãs por toda a Índia, e as espingardas talvez fossem brinquedos de crianças. Qual não foi nossa surpresa ao descobrirmos que tudo isso era "munição" para o grande Holly Festival! A festa acontece da seguinte forma: No domingo à tarde (até o fim da noite), todo o comércio fecha e as pessoas ficam pelas ruas com bexigas cheias de água jogando umas nas outras, principalmente nos indianos e nos gringos que passam desavisados. De repente, vem uma bola de água de uma direção qualquer e estoura em cima da gente! É gente passando pra cá e pra lá completamente molhada e montes de indianos aglomerados se divertindo e rindo pra valer. Todo mundo entra na brincadeira! No dia seguinte, começa a história das cores, todo mundo borrifando e jogando pó colorido em todo mundo. 
Com tudo isso, não pudemos percorrer a cidade porque a brincadeira pode ficar mais séria, tendo em vista que também é um dia em que muitos indianos bebem. Não Índia, não se consome bebida alcoólica, com raras exceções. Assim, ficamos com receio e exploramos apenas o comércio local bem próximo ao hotel. Ainda assim, uma de nossas amigas levou um tiro d'água nas costas. 

 
Rua do Hotel Hari Piorko em Delhi - Tintas e espingardas

01/03/2010
Acordamos em Delhi já sabendo que estaríamos confinadas no hotel o dia todo.  Neste dia do Holly Festival,os banhos de pós coloridos são pra valer. Ninguém escapa! Todo o comércio, bancos, tudo fecha. O problema é que somos seis mulheres e isso chama muito a atenção dos indianos. Mas... Ficou a vontade de conhecer melhor a festa e ver de perto como eles se divertem. Foi incrível! Ficamos na porta do hotel assistindo às pessoas jogando tinta em pó umas nas outras. Um grande colorido ia tomando conta do cenário, ruas, roupas, cabelos, rostos, todos tingidos das mais diversas cores. Aprendi com o rapaz da recepção do hotel que as cores mais vivas são pigmentos naturais, saem mais fácil e não prejudicam a pele, mas o pigmento preto é cascudo! Foi uma pena e ao mesmo tempo uma sorte, pois não pudemos ver Delhi, já que tínhamos que sair às 23h para o aeroporto nos despedindo, assim, da Índia. Porém, pudemos vivenciar o modo como os indianos se divertem e festejam essa data tão importante pra eles.

O Holly Festival celebra um conto mitológico antigo. "Conta a mitologia Hindu que havia um grande rei que tinha um filho. Esse filho perguntava ao pai quem era Deus e o pai, por não acreditar em Deus, respondia sempre que ele era Deus. O filho foi crescendo, não se convenceu e contestou o pai.  O rei furioso expulsou-o do castelo e o jurou de morte juntamente com a própria irmã que também o contestava. Assim foi feito, o Rei mandou que fizessem uma grande fogueira e ordenou que ambos fossem jogados nela (no "dia da água" as pessoas também tocam fogo em gigantescas fogueiras que ficam preparadas antecipadamente nas diversas ruas das cidades indianas). Quando ambos iam começar a arder em brasas, o grande Deus Visnu surgiu e os salvou, deixando-os ilesos. Assim, as pessoas celebraram com muita alegria o acontecimento e o Rei se rendeu ao grande Visnu.

Então, a diversão é muita. E os gringos caem dentro. Se estivéssemos acompanhadas de alguns homens, sairíamos pelas ruas. Mas, eu estava gostando de ver toda aquela alegria. Até que o rapaz da recepção do hotel, Raj, me entregou um saquinho de corante verde perfumado na mão e nos convidou a participar da "festa" apenas ali na frente do hotel. Uma de minhas amigas topou e, então, caímos na folia. Foi divertido mesmo! Jogamos tinta uma na outra. Joguei nas pessoas que passavam. Volta e meia alguém vinha em nossa direção e espalhava rosa, laranja, amarelo, em nossas roupas, braço, cabeça. O resultado até que foi bonito, ficamos parecendo uma aquarela!


(Na lage do Hotel Hari Piorko assistindo ao Festival e Colorida)

O restante do dia foi descanso e filminho no quarto até nossa despedida.
Seguimos para o aeroporto às 22h. A saga chegou ao fim com muito sucesso, bagagem de montão (em todos os sentidos, porque, mais uma vez, a Índia é incrível para compras!), muito bom astral e, pra mim, uma certa nostalgia por estar deixando pra trás 30 dias de convívio intenso com as meninas e com a Nação que tanto esperei pra conhecer!

Agradeço a todas as Forças materiais e imateriais que me deram esse presente, essa Permissão!

02/03/2010
Madrugada de 02 de março - Aeroporto de Delhi...

Fim!

9 comentários:

  1. Obs.: se você clicar na foto, poderá ampliá-la para visualizar melhor!

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  2. A viagem está adorável e nem estou usando cartão de crédito!

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  3. Que emoção na descrição do asham de Sri Aurobindo! Senti-me por lá!
    Sonia

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  4. Adorei Auroville e todas as "sortes" que tiveram para desfrutarem o máximo desse lugar! Não há coincidências, nem sortes... Vcs. foram abençoadas nessa viagem!
    Sonia

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  5. Fiquei alguns dias sem ler o diário e já estava morrendo de vontade de "viajar" de novo. Impressionante o relato do indiano e os sinos tibetanos!

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  6. Glaucia
    Adorei viajar... Mesmo virtualmente, foi possível sentir e imaginar o quanto incrível foi a sua viagem.
    Obrigada por compartilhar este momento tão especial.
    Bjs, com muito amor...
    Cris

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  7. Oi Gláucia,
    só hoje acabei de ler nossa história. Apesar de tudo, me deu saudades ... Rô

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  8. Adorei ler o relato de vocês. Estou indo para Índia dia 14 e também comecei um diário de viagem!
    Gratidão,

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    1. Oi Flor, espero que esteja escrevendo um rico diário e que esta viagem lhe traga os melhores frutos possíveis!
      Namaste, Glaucia

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