OM MANI PADME HUM

“As pessoas ficam doentes física e mentalmente. Para alguns, a vida é apenas um retardo para a morte; para outros, a morte é mais bem-vinda que a vida. Alguns levam uma vida miserável, incapazes de encarar a morte; outros se suicidam, por serem incapazes de encarar a vida. Estas experiências fazem você crescer por dentro. Se Deus não fez este mundo apenas para o sofrimento, e, se houver algo mais (e eu intuitivamente pressinto isso), eu o descobrirei."

Swami Sivananda

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Falando de Hatha Yoga... Sindrome da Hipermobilidade Articular na Prática!





A Síndrome de Hipermobilidade Articular nas Práticas de Yoga


Voce já imaginou que crises de enxaqueca podem estar relacionadas com algumas belas performances de posturas de yoga que muitas vezes presenciamos nas práticas?
Segundo a professora de yoga Bernadette Birney, que resolveu consultar um neurologista a fim de investigar incansáveis dores de cabeça que a acompanhavam desde a infância, após rever sua história e examiná-la, o especialista perguntou: "Voce se importa de flexionar o tronco à frente para tocar seus dedos dos pés?"
Em seguida, perguntou: “Voce sente dores musculares?” “Demais,” ela respondeu. “A prática de yoga ajuda?” perguntou ele. “Sim - SE,” respondeu, “se eu for cautelosa, o que sou. Se eu forçar minha flexibilidade, pagarei por isso.”
As articulações da Bernadette são bastante móveis - hipermóveis - mas os músculos são firmes, com nós de tensão crônica. 
Muitas vezes, alguns alunos ficam impressionados com a extrema facilidade e conforto com que outros sentam-se de pernas cruzadas, como na posição de lótus, por exemplo. Para muitos deles, com a bacia tão retesada, é impossível imaginarem-se nesta posição sentindo-se confortáveis. O que se desconhece é que, muitas vezes, esta "habilidade" já pertencia àquelas pessoas antes de praticarem yoga, sem desmerecer os efeitos da prática no desenvolvimento da flexibilidade quando necessária para um maior conforto físico. Atualmente, este tipo de "sintoma" tem sido correlacionado com a Síndrome de Hipermobilidade Articular, uma condição caracterizada por articulações que têm mobilidade além dos limites normais de movimento.
Na prática de yoga, aqueles que têm dificuldade para tocar os dedos do pés podem sentir sua falta de flexibilidade como uma deficiência, e, obviamente, pode até ser. Entretanto, apesar de uma amplitude de movimento muito limitada não ser o desejável, não está nem perto de ser tão perigosa quanto a amplitude de movimento excessiva.
As pessoas com esta síndrome sofrem de dores musculoesqueléticas e articulares, além de lesões de tecidos moles como distensões, entorses, tendinites e luxações. Porque os ligamentos são instáveis, há uma tendência maior de desenvolver escolioses, ATM, discopatias, pés chatos e dores de cabeça.
O Dr. Alan Pocinki, doutor em medicina que atua na área metropolitana de Washington D.C., escreveu um artigo inovador sobre esta síndrome. No artigo ele explica: “Porque os ligamentos são frouxos e, assim sendo, não podem exercer bem suas funções, os músculos são forçados a desempenhar um trabalho maior do que foram concebidos para fazer entrando, portanto, em fadiga.” Nem todos entendem esta condição ainda. Talvez isso ocorra por uma mutação nos genes do colágeno. 
As pessoas com a síndrome de hipermobilidade articular são mais suscetíveis à fibromialgia, osteoartrites (que ocorrem mais facilmente em articulações frouxas) e dores neuropáticas ou dormências. Com frequência, têm equimoses e possuem pele anormalmente elástica e aveludada. Ficam visivelmente desconfortáveis quando permanecem em pé por longos períodos de tempo.

Além disso, o sistema nervoso também tende a ser excessivamente responsivo. Dr. Pocinki escreveu que “Nos últimos anos, a síndrome de hipermobilidade articular tem sido associada a vários problemas do sistema nervoso autônomo. (O sistema nervoso autônomo regula todos os processos corporais, como batimentos cardíacos, pressão sanguínea, respiração, digestão e imunidade.)” Portanto, pessoas que sofrem desta síndrome podem ter problemas circulatórios (por exemplo: pressão baixa,  tontura ao se levantarem, pés e mãos frias, palpitações cardíacas, veias varicosas e, em casos extremos, veias sanguíneas podem até romper-se). Ainda há uma tendência para questões digestivas, como refluxo e doença do intestino irritável.
De acordo com Pocinki, “Para compensar o estiramento das veias sanguíneas, muitas pessoas com a hipermobilidade parecem produzir mais adrenalina..." Com o tempo, a produção excessiva de adrenalina pode exaurir as glândulas adrenais, levando à fadiga, dificuldade para dormir, ansiedade e depressão.
Até transtornos autoimunes podem estar associados a esta síndrome, como a disfunção de Hashimoto que é uma doença autoimune da tireóide.
A Síndrome da Hipermobilidade Articular e sua prima-irmã, porém mais severa, a Síndrome Ehlers-Danlos, são consideradas genéticas. Mulheres são cerca de três vezes mais acometidas por esta síndrome do que homens. A questão é que, quando crianças, a flexibilidade excessiva das meninas pode ser considerada bela e encorajada, especialmente quando envolvidas em atividades como ginástica olímpica ou ballet.
Obviamente, estas considerações sobre a Síndrome da Hipermobilidade Articular são relevantes para o yoga, porém até então não me deparei com observações sobre o assunto em nenhuma aula ou publicação de yoga. Talvez pelo fato de a flexibilidade ser positivamente veiculada em muitas aulas de yoga, há grande chance de, se procurarmos, encontrarmos maiores incidências desta síndrome entre yoguis do que na população em geral.
As pessoas tendem a apreciar as coisas em que são boas. Muitas vezes, ser extremamente flexível parece ser equivalente a ser "bom em yoga", ter sucesso na prática. Imagine um cenário em que um instrutor com a síndrome de hipermobilidade articular ensina yoga. Pessoas flexíveis podem copiar uma amplitude de movimento patológica, enquanto alunos encurtados - ou mesmo aqueles com saúde perfeita e amplitude de movimento normal - podem sentir-se incapazes ou "ruins no yoga". Na verdade, não precisamos imaginar este cenário. Acho que ele acontece com alguma frequência...
Porém, a prática de Yoga ainda pode ser excelente para pessoas com esta questão. A estabilização dos músculos que sustentam as articulações pelo fortalecimento com suave resistência é muito positiva. Entretanto, é imperativo que a prática de asanas seja realizada com bom alinhamento e que o praticante abstenha-se das hiperextensões das articulações. A sustentação de carga também não é indicada, portanto, é possível que seja necessário fazer ajustes nas posturas para diminuir a carga. Por exemplo, pousando os joelhos no chão quando em chaturanga dandasana, ou evitando o asana totalmente. Talvez seja necessário fazer movimentos mais lentos mediante a sensação de tontura.
Certamente, a yoga restaurativa, pranayama e meditação também são de garnde ajuda para o sistema nervoso.
Por enquanto, não há cura para a síndrome de hipermobilidade articular. Sendo assim, é possível tratar os sintomas mas não a causa subjacente. Isso significa que a confirmação do diagnóstico pode ser um grande alívio!  Quando se está cansado, com dor e estressado por tempo prolongado, é fácil relegar-se ao papel de resmungador ou hipocondríaco. Entender que há razões físicas reais em questão pode ajudar a pessoa a não sentir-se louca, emocionalmente frágil ou, até mesmo, melhor do que ninguém.
Namaste :)

Referências:
1. Alan G. Pocinki, MD, PLLC, Joint Hypermobility and
Joint Hypermobility Syndrome
, (2010).
2. William C. Sheil Jr., MD, FACP, FACR, Hypermobility Syndrome
(Joint Hypermobility Syndrome)
, (4/29/2015).

sábado, 16 de abril de 2016

O Significado do Om



De todos os mantras, Om é o mais importante. Um mantra é, literalmente, “aquilo que protege a mente”. Uma vez cantados e repetidos, a mente é disciplinada e, como consequência, obtemos uma capacidade de observá-la, compreendendo como ela funciona, o que a faz reagir e como podemos fazer para lidar melhor com ela. O termo mantra é usado, rigorosamente, apenas para os versos dos Vedas, e tem sempre uma conotação devocional, descrevendo e elogiando este Todo que é Īśvara, “aquele que tudo governa”. Por este motivo, os mantras também protegem porque são um meio para enfraquecer nossos gostos e aversões; uma vez que não entoamos os mantras para satisfazer os desejos da mente, e sim nos relacionarmos com Īśvara, aqueles gostos e aversões perdem aos poucos sua força, e as reações por não obter os objetos de desejo também diminuem. E desta forma, o ego, com todas as suas projeções, se dobra, nos permitindo questionar sobre a verdade de nós mesmos.

Além disto tudo, os mantras são muito bem feitos, tendo sido recebidos pelos ṛṣis do passado, sendo transmitidos oralmente até os dias de hoje. De modo a mantê-los intactos, os mantras devem ser cantados rigorosamente na métrica correta. Os efeitos de tais métricas são vários, que incluem uma absorção da mente no canto, contribuindo para uma mente meditativa. Os mantras, quando corretamente entoados, eliminam pāpam, demérito, e os obstáculos são dissolvidos, abrindo caminho para uma mente discriminativa e preparada para o autoconhecimento.

Om também é chamado Praṇava, e deriva da raíz Av, “proteger”. Dentre todos os mantras, Om é aquele que mais protege. Todo mantra tem início com o Om; o próprio Veda tem como primeira sílaba o Om. Ele é considerado um bīja mantra, ou seja, um mantra semente, guardando em potencial outros mantras. Por exemplo, o bīja mantra “gam” está associado a Gaṇeśa, e guarda seus mantras em potencial. Da mesma forma o bīja “śrīm”, com Lakṣmī, e “aim”, com Sarasvatī. Mas, dentre todos, o Om é o maior bīja mantra. Ele guarda em potencial todo o Veda, com todos os seus mantras, e todo o conhecimento contido neles. É dito que o Om guarda todo o universo em potencial, sendo o primeiro som entoado por Brahmā, o criador, no momento da manifestação do Universo.

Por ser o maior bīja mantra, é dito que não se deve fazer Japa, a repetição em múltiplos de 108, com o Om. A consequência é um enorme impulso pela renúncia de tudo. Uma vez que vivemos em um mundo onde temos nossas obrigações, não seria adequado tal impulso, e por este motivo, a repetição de Om é recomendada apenas para os renunciantes. Para todos os demais, é dito que deve-se sempre repetir outro mantra que, naturalmente, incluirá o Om no início, como por exemplo Om Namaḥ Śivāya.

Om é formado por três letras: A – U – M. Entretanto, quando unimos a letra A com a letra U, em sânscrito, ambas se fundem na letra O. Por este motivo, escrevemos e entoamos OM, e não AUM.

Estas três letras originais carregam todo o ensinamento contido nos Vedas. A primeira letra, A, representa o início, o ato de criar, e por isto está associada a Brahmā; a segunda letra, U, representa o meio, o ato de manter e sustentar, e por isto está associado a Viṣṇu; a terceira, M, representa o final, o ato de dissolver e destruir, estando associado a Śiva. Desta forma, temos um primeiro significado do Om, representando Īśvara na forma da conhecida Trimūrti, a trindade hindu. A repetição do Om, então, representa o processo constante de manifestação e dissolução do universo.

A letra A é o som mais básico para começar a falar; representa o ato de abrir a boca, e por isto está associada ao início de qualquer palavra. O M representa o ato de fechar a boca, ao terminar de falar, e por isto está associado ao final de qualquer palavra. A letra U representa todas as outras letras existentes. Desta forma, Om inclui todas as palavras possíveis, que necessariamente começam com o abrir da boca e terminam com o fechar da boca. Porém, a tradição ensina que todos os objetos nada mais são que nomes e formas; desta maneira, todos os objetos estão inclusos no Om. E o que é o Universo senão todos os objetos, todos os nomes e formas? Assim, Om representa este Universo, o Todo, Īśvara.

As três letras também significam os três guṇas: sattva, rajas e tamas. O primeiro refere-se a conhecimento e discriminação; o segundo a ação e movimento; o terceiro a inércia e ignorância. A combinação destas três tendências constituem todo o Universo, com suas constantes modificações. Desta forma, o Om novamente representa este Īśvara, na forma dos três guṇas.

Complementando o significado, temos que A – U – M representam os três períodos de tempo – passado, presente e futuro; os três mundos – Bhūḥ, Bhuvaḥ, Suvaḥ; os três “corpos” de Īśvara, que são o universo físico, o sutil e o causal. De fato, o número 3 surge constantemente dentro do simbolismo védico, se manifestando de forma grandiosa no Om. Todos estes significados nos remetem a Īśvara, o todo.

Porém, o Om também nos remete a Jīva, o indivíduo, que também é constituído dos três guṇas; também tem três corpos, o grosso, o sutil e o causal; e que vive os três estados de experiência – acordado, sonhando e dormindo.

Qual a relação fundamental entre Jīva, o indivíduo, e Īśvara, o Todo? Os Vedas nos oferecem o conhecimento sobre esta relação, que também é representado no Om. A – U – M são os três Vedas, Ṛg, Sāma e Yajur, que contêm todo o conhecimento (Atharva, sendo um Veda um pouco diferente dos demais, tradicionalmente é omitido da lista simbólica). Também representam as três etapas do ensinamento – śravaṇam, o escutar as palavras dos Vedas a partir de um mestre versado; mananam, o questionar estas palavras de modo a eliminar todas as dúvidas, conduzindo a um entendimento claro; e nididhyāsana, a contemplação daquilo que foi entendido, para que o conhecimento seja estabelecido na mente do estudante com firmeza. E, finalmente, representam o estudante (A), o guru (M) e a conexão entre ambos (U), que é o processo de ensinamento.

E no que consiste este conhecimento? Os Vedas ensinam que o indivíduo e o Todo são o mesmo. Como isto é possível? Na repetição do Om, o mantra surge, permanece um tempo, e se dissolve. Depois, surge novamente, se mantém e se dissolve. Este ciclo, assim como a manifestação e dissolução do universo, é constante, não tendo início nem fim. Entretanto, o que existe entre duas repetições? Uma mera ausência do som?

Quando repito um mantra, este mantra é pensamento. No momento do pensamento, estou presente. Isto é claro, porque normalmente nos identificamos com nossa mente. Mas e entre as duas repetições? Neste momento, só há silêncio. Nenhum pensamento está presente, mas ainda assim eu estou presente. Desta forma, concluímos facilmente que eu não sou pensamento, não sou a mente, uma vez que na ausência de pensamento eu ainda estou presente.

Se estou presente no momento do silêncio, então o silêncio não é uma mera ausência de pensamentos, mas sou eu mesmo. O silêncio é aquilo que é livre das formas, livre de limitação, livre de qualidades. Se antes de uma repetição há silêncio, e depois também há silêncio, o que me diz que durante a repetição não há silêncio? Se estou presente durante o silêncio, e sei que estou presente durante o pensamento, então estou presente todo o tempo. Este silêncio, portanto, existe sempre, sendo eterno, sem início e sem fim; dele os pensamentos surgem, nele os pensamentos se dissolvem. Todo o universo é nome e forma, mas todo nome e forma é pensamento. Portanto, todo o universo surge do silêncio, e se dissolve no silêncio. Assim, este silêncio é a verdade de Īśvara, o Todo, e a verdade de Jīva, o indivíduo. O conhecimento que os Vedas transmitem é que este Īśvara e eu somos o mesmo, livre de limitação, eterno; Sat, Cit, Ānanda – Existência, Consciência, Plenitude. Este Absouto, chamado Brahman, é Om, e este Om sou eu.

Desta forma, Om carrega todo o conhecimento. Meditando sobre ele, o indivíduo é capaz de descobrir a verdade sobre si mesmo.

Om Tat Sat

Por Patrick van Lammeren

Patrick van Lammeren é discípulo da professora Gloria Arieira desde 2004. Dá aulas de Vedānta e simbolismo védico e faz parte da equipe do Centro de Estudos Vidya Mandir

sábado, 26 de março de 2016

Mensagem Para o Fim de Semana



Sede passantes
Este tema da passagem é o tema da Páscoa.
Pessah em hebraico, quer dizer passagem.
A passagem, no rio, de uma margem à outra margem,
a passagem de um pensamento a outro pensamento,
a passagem de um estado de consciência
a outro estado de consciência.
A passagem de um modo de vida
a um outro modo de vida.
Somos passageiros.
A vida é uma ponte e, como diziam os antigos,
não se constrói sua casa sobre uma ponte.
Temos que manter, ao mesmo tempo,
as duas margens do rio, a matéria e o espírito,
o céu e a terra, o masculino e o feminino e
fazer a ponte entre estas nossas diferentes partes,
sabendo que estamos de passagem.
É importante lembrar-se do carácter passageiro de nossa existência,
da impermanência de todas as coisas,
pois o sofrimento geralmente é de querermos fazer durar
o que não foi feito para durar.
A grande páscoa é a passagem desta vida mortal para a vida eterna,
é a abertura do coração humano ao coração divino.
É a passagem da escravidão para a liberdade,
passagem que é simbolizada pela migração dos hebreus,
do Egito para a terra Prometida.
Mas não é preciso temer o Mar Vermelho.
O mar de nossas memórias, de nossos medos, de nossas reações.
Temos que atravessar todas estas ondas, todas estas tempestades,
para tocar a terra da liberdade,
o espaço da liberdade que existe dentro de nós.
Sede passantes.
Creio que esta palavra é verdadeiramente um convite
para continuarmos nosso caminho
a partir do lugar onde algumas vezes paramos.
Observemos o que pára a vida em nós,
o que impede o amor e o perdão,
onde se localiza o medo dentro de nós.
É por lá que é preciso passar, é lá o nosso Mar Vermelho.
Mas, ao mesmo tempo, não esqueçamos a luz,
não esqueçamos a liberdade, a terra que nos foi prometida.
FELIZ PÁSCOA!

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Jean Yves Leloup

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Quem Está Desafiando O Quê? E Por quê?

           
Lembro-me de meu pai, A. G. Mohan, dizendo anos atrás, que ter um desafio na prática de yoga é bom, mas todo praticante deve se perguntar: “Quem está desafiando o quê? E por quê?”.
Se meu desafio for colocar minhas pernas atrás da cabeça, isso não é bom nem ruim, não é certo nem errado, em absoluto. Mas quem está emitindo o desafio para mim? Minha mente? Estou consciente de todos os pensamentos em minha mente? Longe disso. Minha mente neste exato momento reflete a soma de inúmeros processos subconscientes do passado e presente. Não é por menos que não podemos dar passe livre ao que nossas mentes nos dizem.
Se minha mente emite o desafio, quem o executa? Não é minha mente que põe suas pernas atrás da cabeça; não diretamente, de forma alguma. É o meu corpo que faz isso.
Portanto, se minha mente desafia meu corpo, esse é um desafio inteligente? Para responder à pergunta, devemos perguntar: “Por quê?”
Quando a mente desafia o corpo, é uma ideia desafiar a mente primeiro. Se vier uma resposta significativa, então, podemos passar o desafio para o corpo.
Se a resposta for: “Porque a pessoa no tapete de yoga ao lado está fazendo”, “Meu professor me orientou”, “É como fazemos neste estilo de yoga”, não é uma resposta muito boa, é?!
Afinal, nenhuma dessas respostas informa por que você deveria estar fazendo isso. Nenhuma dessas respostas inclui o contexto ou relevância deste desafio para você como um indivíduo.
Você não é seu vizinho no tapete. Você não é seu professor. Você não é igual a todas as outras pessoas praticando um estilo de yoga. Mesmo gêmeos idênticos possuem diferentes experiências e objetivos de vida!
Como Krishnamacharya sabiamente disse: “O ensino é para quem está sendo ensinado”.
O Yoga tem ser significativo para voce, e alimentado por voce. Somente assim será sustentável através do tempo e compensador ao longo da vida.

Ganesh Mohan
14 Feb 2016
Traduzido por Glaucia Cantergiani

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

YOGA NA GESTAÇÃO, Uma Manifestação de Amor!



A prática de yoga na gestação está se tornando muito popular. Quando comparada aos exercícios cardiovasculares, como a caminhada por exemplo, o yoga pode ser a maneira ideal de manter a forma durante a gravidez devido a sua completude. Esta prática milenar ajuda a manter a flexibilidade, tonificar os músculos e melhorar o equilíbrio e a circulação, com pequeno, ou nenhum, impacto nas articulações.

O yoga também é excelente para a gestante porque desenvolve a respiração profunda e relaxante, o que se torna muito importante nas demandas físicas do trabalho de parto, nascimento e maternidade. Na verdade, uma das primeiras coisas que se aprende em uma aula de yoga é a respirar plenamente. A técnica de respiração conhecida como ujjáyí, por exemplo, requer uma inalação lenta pelas narinas, preenchendo os pulmões plenamente, e uma exalação completa até a compressão do estômago. Aprender esta técnica é muito útil para o trabalho de parto e nascimento do bebê, pois, além dos benefícios fisiológicos, ajuda a gestante a manter-se calma no momento mais necessário.

Quando estamos sentindo dor ou com medo, o corpo libera adrenalina e pode produzir menos ocitocina, o hormônio que faz o trabalho de parto progredir. A prática frequente de yoga ajuda a gestante a combater contra a vontade de se contrair ao sentir desconfortos e dores, ensinando-a como relaxar em vez disso.

De acordo com um relatório emitido em abril de 2009 pela Harvard Mental Health Letter, rigorosos estudos elucidaram provas científicas de que o yoga ajuda na lida do corpo com o estresse por diminuir as frequências cardíaca, respiratória e a pressão sanguínea.

Os benefícios do yoga não estão limitados ao bem-estar físico. Participar de uma aula de yoga para gestantes é uma ótima forma de encontrar outras gestantes, formar uma comunidade. Estar num ambiente positivo e acolhedor, convivendo com pessoas que estejam experienciando situações semelhantes, além de ser prazeroso, é um fator que proporciona motivação e ânimo para manter a prática.


Namaste!
Glaucia Cantergiani


Turma Especial Para Gestantes no Dharma Yoga & Terapias:
2as feiras - das 10:30h às 11:30h  e  6as feiras - das 9:30h às 10:30h
Informações: dharmayogaeterapias@gmail.com - 3825.5313


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Novo Espaço de Yoga na Barra da Tijuca!


Com muito prazer apresento aqui o Dharma Yoga e Terapias!
Nascido em 19 de setembro de 2015, o Dharma está de portas abertas para todos que se sentirem chamados a praticar o yoga numa escola fiel e firme em seu propósito de transmitir a verdadeira essência do Yoga na base de cada aula ministrada na sala de práticas.
Sintam-se bem-vindos!


Namaste,
Glaucia Cantergiani



segunda-feira, 20 de julho de 2015

O que é JAPA?!

(Diálogo de Swami Dayananda sobre Japa)
Japa

O Significado de Japa

Japa é a repetição de uma palavra ou frase curta durante a meditação. A letra ja (em sânscrito, as consoantes têm a junção da vogal a, portanto, j (jota) equivale à ja) aponta para aquilo que coloca um fim ao ciclo de nascimento e morte, e a letra pa aponta para aquilo que remove ou destrói todas as impurezas e obstruções. Portanto, japa é um significado indireto para liberação, mokṣa. Ao destruir as diversas obstruções ao conhecimento, japa pavimenta o caminho para a liberação. Sendo assim, japa é mais do que uma mera disciplina ou técnica.
            Estes diálogos nos trarão um entendimento da natureza e lógica de japa e a maneira como ele funciona. Com este entendimento, a pessoa torna-se capaz de fazer japa com convicção e mantê-lo adequadamente.

Pensamentos imprevisíveis

Em dado momento, uma pessoa tem apenas um pensamento; o próximo pensamento está sujeito à adivinhação de qualquer um. Porém, quando o próximo pensamento realmente ocorre, ele terá sido como foi em função de alguma lógica. Na corrente de pensamentos não há pensamento sem certa conexão com o pensamento precedente. Esta conexão pode ser inconsistente ou pode ser muito clara e lógica. Mas, o pensamento em si, nunca é previsível.
Mesmo agora, eu não posso prever o que direi. Eu simplesmente disse que falaria sobre japa e comecei. Até mesmo as palavras que estou dizendo agora não eram do meu conhecimento. O que virá é imprevisível, mas quando vem, tem a retaguarda da lógica, da razão.

Padrão de Pensamento

Vamos supor que voce tenha visto um BMW na estrada e ele chama sua atenção. Qual será seu próximo pensamento? “Como ele tem condições financeiras de arcar com isso?” Em seguida, “Como ele consegue comprar um carro tão caro? No ano passado ele nem tinha trabalho. A esposa dele deve ter muito dinheiro. Eu gostaria que minha esposa tivesse vindo de uma família rica. Quando me casei, não pensei em dinheiro nem em meu futuro.”
Todos esses pensamentos começaram a partir da visão de um BMW e, depois, seguiram determinada lógica. Esta sequencia específica foi apenas uma linha de pensamento.
Vamos olhar sob uma nova ótica a visão do BMW: “Os alemães são muito industriais. Apesar de o país deles ter sido devastado durante a Segunda Guerra Mundial, a economia deles recuperou-se rapidamente. Eles produzem os melhores equipamentos científicos do mundo.”
Onde você começou? No BMW. O que virá a partir do BMW dependerá da imaginação de cada um. Mesmo no pensamento deliberado você não sabe o que vem a seguir porque o pensamento é sempre linear, um passo por vez, um pensamento por vez. A conexão entre pensamentos pode ser uma conexão sintática dentro de uma frase, lógica, ou uma simples associação. Mas, será sempre uma conexão, fraca ou forte.
No ‘pensamento BMW’, a conexão entre pensamentos não é deliberada. Portanto, o próximo pensamento pode ser qualquer um. “O símbolo da BMW é diferente. Não é como a insígnia da Mercedes.” A insígnia da Mercedes faz você pensar numa estrela e, então, o próximo pensamento pode ser: “Meu signo astrológico não está favorecido.” Este movimento de um pensamento para o próximo é um padrão de pensamentos desatentos, um fluxo de pensamentos onde não há direção.
Neste fluxo de pensamentos desatentos, embora não haja direção, sempre haverá alguma lógica, alguma conexão. Pode ser uma simples rima, uma palavra lhe remetendo a outra, uma variedade de outras conexões possíveis. A invariável é que, a todo o momento, sempre há um ou outro pensamento em sua mente.
Da mesma forma como no pensamento deliberado, no padrão de pensamentos desatentos, não sabemos qual será o próximo pensamento. Porém, na prática de japa, definitivamente, é possível saber o que vem a seguir. Japa pode ser uma palavra, uma frase curta, uma parte dos Vedas, mas para ser japa precisa haver a repetição.
Se estivermos repetindo uma palavra ou frase curta, teremos certeza do momento em que saímos da trilha. No “pensamento BMW”, portanto, pensar na Alemanha e depois sobre o Mercedes, ou qualquer outra coisa, não é sair da trilha porque não há trilha. Tais pensamentos simplesmente acontecem. Esse é o significado de pensamento desatento. Não há direção para eles.

Aprendendo sobre a mente

Realmente, não existe um método para aprendermos sobre a mente. Apenas sabemos que estamos sujeitos a um tipo específico de pensamento. Por exemplo, entramos em devaneio até que algo captura nossa atenção e, somente então, retornamos.
Existe alguma coisa que possuímos na nossa de vida de pensamento, que é a nossa vida, que nos ajude a entender nossas formas de pensar? O que temos para nos ajudar a lembrar de como direcionar nosso pensamento por um determinado período de tempo e ter a mente à nossa disposição?
Não possuímos uma técnica direta. Se tivermos sorte, teremos adquirido alguma disciplina intelectual na escola que terá nos dado a capacidade para o pensamento lógico. No processo, poderemos vir a descobrir alguma disciplina, mas não saberemos que isso é uma técnica; nem a utilizaremos como tal.

Japa como uma técnica

O exercício da escolha é muito importante em japa. Se eu escolho cantar uma palavra ou uma frase mentalmente por um período de tempo, tenho uma técnica em mãos e posso ver o que acontece em minha mente porque eu sei exatamente o que vem a seguir. Se algo mais surgir, eu sei que não é o que esperava e eu trago de volta o pensamento escolhido. No processo, eu aprendo como dispersar pensamentos indesejados e reter aquele que eu escolhi. Este é um importante resultado de japa como uma técnica.
Como uma técnica, qualquer palavra funcionará. Não é necessário invocar o nome do Divino ou um mantra espiritual. Qualquer som pode ser um mantra, como, por exemplo, “gring... gring... gring... gring... gring...”. Se permanecer repetindo esse som, funcionará. Um pensamento estranho virá eventualmente, como “O que faz esse tipo de barulho?” “Uma gaita de fole”, pode ser a resposta. Então, talvez voce pergunte: “O que uma gaita de fole tem a ver com meu japa?”.  Ao retornar para o som, o pensamento sobre a gaita de fole será dispersado.
Assim, a repetição funciona como uma técnica para obter alguma disciplina mental; voce dá a si mesmo uma oportunidade para ver os caminhos do próprio pensamento. Entretanto, japa de um canto significativo invoca a pessoa essencial em voce. Voce terá que ser esta pessoa enquanto estiver fazendo japa.

Intervalo Entre Pensamentos

A vantagem da repetição é que voce pode apreciar o intervalo entre duas sucessivas ocupações da mente. No pensamento desatento sem direção a mente simplesmente move-se de um pensamento para outro. Esse tipo de pensamento é como pegar macarrão. Se tentar pegar um macarrão, verá que ele virá junto com alguns outros. Da mesma forma, a função completa do pensar dá a impressão de ser um único pensamento, apesar de haver muitos pensamentos.
Entre dois pensamentos, existe um intervalo. BMW é o nome de um veículo e Alemanha é o nome de um país. Porque existe uma conexão entre ambos, o intervalo entre eles é perdido. A repetição de um determinado canto elimina ou evita a conexão entre dois pensamentos porque, entre um canto e outro, não há conexão.
Cada canto é uma unidade completa em si mesma, e a unidade de um pensamento não estará conectada com a unidade do segundo pensamento desde que ambos sejam o mesmo. Portanto, entre dois pensamentos, existe um ponto; canto... ponto... canto... ponto. Não há vírgula, somente ponto, um ponto final. Assim, cada canto é completo e, entre os cantos, o intervalo estará disponível para que voce possa reconhecer.

Paz na Mente

O que é que se obtém no intervalo entre cantos? Entre um pensamento com determinada forma e som e o pensamento seguinte, não há nenhum pensamento. Existe apenas um intervalo sem forma ou molde. Isso é o que chamamos de paz ou silencio. Porque esse silêncio não possui uma forma de pensamento especifica, não o pensamento da maneira como o conhecemos.
Sempre achamos que paz é alguma coisa que precisamos adquirir. As pessoas até perguntam: “Swamiji, eu tenho tudo exceto paz na mente. Como posso ganhar esta paz?” Porque a mente é incansável, achamos que paz é algo novo que precisamos adquirir, um atributo com o qual temos que enfeitar a mente. Paz é algo que precisamos adquirir ou é natural?
Certa vez, fui até um swami. Podia sentir que ele era uma pessoa que tinha paz consigo mesmo. Estava comprometido com Vedanta, mas, ao mesmo tempo, tinha muitos conflitos em minhas buscas. Fui até esse swami numa tentativa de resolvê-los. Ele nunca foi de falar muito, mas me disse uma coisa que realmente me tocou: “Para a inquietude, é preciso trabalhar muito. Para a paz, o que se pode fazer?” Ao responder esta pergunta, ele ficou em silêncio, o que achei muito eficaz.

A Inquietude Requer uma Construção
            
Para a paz, o que é preciso fazer? Para a inquietude é preciso trabalhar; é necessário criar uma construção porque, sem ela, não é possível tornar-se inquieto. O problema é que essa construção não é algo que fazemos conscientemente. Ela se ergue, como uma parede que se levanta sozinha. Imagine que voce tem uma pilha de tijolos e eles simplesmente se agrupam e transformam numa parede. Você consideraria isso um milagre, mas voce não considera uma construção de pensamentos um milagre porque isso está sempre acontecendo. Isso é um milagre simplesmente porque acontece. O fato de os pensamentos se construírem por si só e voce não ter regência sobre isso, é realmente impressionante!
            Existe desamparo em todo o processo. Alguma coisa dispara uma construção; pode ser uma simples alteração hormonal, indigestão, o olhar de alguém, um olhar de reprovação, uma mudança climática ou qualquer outra coisa. Qualquer coisa é o motivo bastante; voce pode estar escovando o cabelo e alguns cabelos caem! Qualquer acontecimento que voce não aceita, dá o ponta pé inicial e logo sua mente está ocupada pelo dia inteiro.
A inquietude requer uma construção progressiva da qual eu, minha própria pessoa, não sou parte. Ainda assim a construção é minha. Eu não a vejo como diferente de mim. Eu me vejo fumegando.


            O que é isso que não me deixa manter o controle dessa construção pensamento-após-pensamento? Isso deve-se ao fato de que todo o padrão de pensamento foi o “pensamento macarrão”, o pensamento associativo ou sem direcionamento... (continua na próxima semana!)


Autoria de Swami Dayananda Saraswati, editado no Arsha Vidya - Chennai, India.
Tradução: Glaucia Cantergiani

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Yoga Para Todos: Qual pratica é boa pra você?


 "Yoga é para quem precisa".
"Jesus, o maior yogui de todos os tempos não ficava de ponta cabeça" Professor Hermogenes.

"Se você tem um corpo, Yoga é para você" Iyengar.

" Imagens de pessoas praticando āsanas são usadas hoje em dia para vender desde seguros de vida a alimentos, desde carros a viagens. Há de tudo: gente em posturas de meditação, yogis em āsanas de equilíbrio, alongamento ou força. Essas fotos têm um denominador comum: apresentam pessoas esguias, fortes, lindas, e aparentemente de bem com a vida, fazendo com a maior naturalidade ações que estão muito além do alcance da imensa maioria dos seres humanos. Todos, invariavelmente, sorrindo.
A imagem do Yoga que se projeta através dessas poses intimida muitas pessoas que se sentem acuadas pelo grau de dificuldade das ações ilustradas. O problema é que o tema não se limita ao mundo da publicidade: esse tipo de imagem é ubíqua também em selfies, redes sociais, publicações, blogs e revistas. Há gente que pensa, legitimanente: “se o Yoga é para pessoas jovens, magras, bonitas e flexíveis, então não é para mim, pois não me encaixo em nenhuma dessas categorias”. O amigo leitor já se perguntou quantas pessoas desistiram de fazer Yoga por conta dessa imagem que se projeta dele?" 


Por Pedro Kupfer.(fonte pro.yoga)
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Pratique com orientação adequada!


Yoga é para todos. Mas um professor experiente é indispensável.

 

"As técnicas foram feitas para pessoas e não pessoas devem se enquadrar em técnicas" Gerson Dáddio
"Yoga deve ser uma pratica inclusiva, democrática e  adaptada para todos que precisam". Silvia Lucarini.


Livros, fitas ou vídeos são muito úteis para estimular o sadhana e estudar detalhes e técnicas depois que você já tem experiência com a prática.
A presença do professor na sala é fundamental para corrigir o alinhamento e o encaixe nas práticas que mexem com o corpo e dar o acompanhamento adequado na meditação ou no pranayama, assim como para detectar necessidades pessoais que você possa ter. 

Por motivos éticos, nós não podemos nem devemos recomendar um único tipo de Yoga, pois as abordagens e os métodos variam muito. A modalidade de Yoga escolhida deve estar em função das expectativas e necessidades do praticante.

Diferentes formas de Yoga não dão os mesmos resultados com as mesmas pessoas, e não há consenso sobre o que deveria ser ensinado em uma aula de Yoga. Não existe um Yoga superior ou melhor que os demais. Cada método se adapta melhor para objetivos diferentes. O melhor Yoga é aquele que funciona para você mesmo, satisfaz as suas necessidades e preenche suas expectativas, sejam elas quais forem".

Há uma diferença fundamental entre um professor e um guru, um mestre iluminado. Por uma questão óbvia de ética e bom senso, não recomendamos professores de Yoga ou instituições que sustentem atitudes ou afirmações como estas:
      1) o nosso Yoga é o melhor e mais completo que existe
      2) nosso método é o único verdadeiro, nenhum outro funciona
      3) o Yoga ensinado pelo professor Fulano não presta
Quem diz se um Yoga é melhor que outro não é o folheto de propaganda, mas o praticante, e isso vale unicamente em relação a si próprio, à sua prática pessoal e ao seu momento.

Por Pedro Kupfer.(fonte pro.yoga)



Do BlogYoga Para Todos: Qual pratica é boa pra você?:

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O PROCESSO DIGESTIVO NA VIDA DE YOGA


          Pensando na palavra digestão, imediatamente nos vem à cabeça o funcionamento complexo e perfeito de nosso aparelho digestivo, as liberações de enzimas, as quebras das moléculas dos alimentos físicos que ingerimos, a absorção feita por etapas através dos nossos órgãos de forma tão integrada e sincronizada. Um milagre! É fácil termos acesso a esse aprendizado em qualquer instituição de ensino uma vez que esta informação é disponibilizada nos diversos curriculums escolares. E, quando tomamos consciência do processamento de alimentos sólidos e líquidos em nossos organismos, muitas vezes, nos interessamos mais sobre o tipo e a qualidade dos alimentos que vamos ingerir. Mas, isso basta para sermos saudáveis? Basta-nos aprender tão somente sobre a digestão física? Como funciona a digestão das nossas emoções e sentimentos? Ou, não os digerimos?!

 

            Falta-nos estudar sobre o processamento dos alimentos sutis. Os pensamentos, as emoções, as memórias, as experiências vivenciais do dia-a-dia; toda sorte de alimentos sutis que ingerimos, querendo ou não, mas que também precisam ser digeridos em nosso Ser. Talvez, falando de forma generalizada, este aspecto seja o que mais diferencie os povos do ocidente da maior parte dos povos do oriente. Quando a espiritualidade, não necessariamente a religião, caminha junto com a vida de um povo, o ser humano aprende desde muito pequeno a conhecer-se como um todo, o que é visível e palpável em si e o que é invisível e oculto também. Não é porque não visualizamos o processamento de toda a complexidade de pensamentos que brotam em nossas mentes que seus efeitos sob nossas células e órgãos deixam de existir. E quão valioso seria se pudéssemos ver uma nação inteira se conhecendo por dentro, por fora, em volta e além!
            De que maneira podemos cuidar da nossa digestão sutil? Certamente, existem várias formas e práticas espirituais à nossa disposição com o objetivo de nos fornecer ferramentas para promover nosso equilíbrio mental e melhorar nossa qualidade de vida, mas para cuidar da digestão sutil, todas devem passar pelo conhecimento da mente e pelo real conhecimento de Quem Eu Sou. Não podemos escolher todos os alimentos sutis, nem modificar a natureza dual da mente humana, mas podemos conhecer este corpo mental tão bem quanto o corpo físico para que possamos escolher os alimentos que iremos ingerir, saber como processar os de difícil digestão que não podemos escolher para, assim, termos algum gerenciamento sobre as situações que vivenciamos e recebemos da vida.



  
Falta-nos aprender corretamente como funciona o lugar do nosso pensar, a nossa mente, que no Yoga encontra-se associado ao corpo sutil, ou skma śarīra. Segundo a ciência do Yoga, esse corpo sutil é constituído pela mente, o intelecto e o prāa, e possui três invólucros que chamam-se vijñanamaya kośa (que nos dá a noção de individualidade e julgamento), manomaya kośa (que nos dá a percepção do mundo exterior como instrumento psíquico da mente) e prāamaya kośa (onde se desenvolve a maior parte da atividade psíquica pela atividade dos chakras). Trata-se de um corpo complexo e sofisticado que nos fornece, portanto, recursos diferenciados para lidarmos com a vida. Através do estudo e autoconhecimento, é possível aprender a utilizá-los a nosso favor para nos alimentarmos melhor e vivermos a vida com sabedoria. Para isso, é preciso haver uma decisão interna firme, um pouco de dedicação e um tanto de abertura espiritual.

 

O homem intelectual, provido de uma mente capaz de investigar e desenvolver tantos conhecimentos, estabeleceu sua visão científica do corpo e da mente na vida humana. O projeto do corpo humano pela visão científica consiste de espaços e estruturas cuja finalidade é manter a pulsação originária da vida humana para que seja possível a realização de atividades especializadas. Sendo assim, no processo inicial de surgimento do corpo físico formam-se as camadas teciduais visíveis (neural, muscular e orgânica) e uma camada hormonal invisível, que são os líquidos que geram e regulam o crescimento, a reprodução, a transmissão de informações, os sentimentos, etc. Através da relação entre essas camadas surgem as experiências diversas como toque, sons, sentidos externos, temperatura, pressão, elasticidade, ritmo, motilidade, etc.. Nossa história pessoal e emocional influencia o desenvolvimento e a expressão da forma humana. O cuidado, suporte e transmissão de experiências (informação sutil) que a família fornece à criança que está se transformando em adulto afetam o desenvolvimento do corpo humano. Se essas informações forem conduzidas na forma de agressões (o que despertará nossos reflexos de defesa), gerarão reações físicas de contração de músculos, suspensão da respiração, entre outras, em nossos corpos; certamente, o processo digestivo sutil estará também automaticamente afetado. Se a agressão for grave e se sustentar por um bom tempo, o padrão de defesa se aprofundará. Sendo assim, os “perigos” internos e externos que vivemos criam reações que mudam nossa forma e nosso funcionamento orgânico geral. E quanto mais persistente for a situação, mais estrutural será esta mudança, atingindo órgãos, músculos, ossos, etc. Isso é o estresse!
Como se não bastasse, temos atualmente inúmeras fontes de informações desqualificadas produzidas diariamente, com muita sofisticação, pelas indústrias do medo (televisão, internet, etc.). Assim, vamos nos alimentando de estresse dia após dia, sem nos darmos conta de que se não fizermos nada para melhorar essa via de alimentação, ou a maneira de digeri-la, acabaremos por sucumbir às doenças e todo tipo de desordens funcionais.
Mas, ainda podemos ir além na visão da mente humana. Segundo os Vedas, o ser humano foi constituído com o desejo constante de alcançar algo (independentemente do que seja) e de manter aquilo que foi alcançado; unir o desejo à retenção/proteção do objeto do desejo. E essa é a fonte de preocupação de todas as pessoas. É da natureza humana estar sempre buscando alcançar algo, seja o objetivo de voltar a fazer exercícios, consertar um vazamento na casa, comprar um carro novo, qualquer coisa; e, depois, estar sempre tentando manter aquilo que alcançou. Isso é fonte de sofrimento constante! Com o estudo do yoga, tomamos consciência da nossa natureza humana, deixamos de reagir à ela e seguimos no caminho que a filosofia nos aponta em busca de uma saída para este dilema: samatvam.
Samatvam é a capacidade de gerenciar os medos e ansiedades provocados pelos desejos. Existe saída para aquele que pode enxergar a porta. Assim, a vida seguirá com seus desafios e obstáculos, nada mudará neste sentido, mas, conhecendo sua própria mente de uma forma mais ampla, além dos limites da psicologia, o indivíduo vivenciará cada situação e aspecto da vida de maneira bem diferente.

E pra ilustrar o que foi dito....


Pause {video} -- A. G. MohanThe mind is like a river. The thoughts are like the various droplets of water. We are submerged in that water. Stay on the bank and watch your mind.
Posted by A. G. Mohan on Sexta, 18 de maio de 2012


     Namaste!

Glaucia Cantergiani

sexta-feira, 6 de março de 2015

ENGANOS COMUNS DO ENTENDIMENTO DO YOGA

ENGANOS COMUNS CONCERNENTES AO YOGA





Patanjali

O Yoga-Sutra do sábio Patañjali é o texto que sistematiza a prática de yoga de modo a estabelecer as diretrizes principais daquilo que pode ser chamado de yoga. A definição de yoga dada no texto, logo no segundo aforismo do primeiro capítulo, diz que yoga é ‘nirodha’ das atividades da mente (citta-vrtti-nirodhah). Tal definição dá margem para o que é talvez o mais difundido e grave engano com relação à prática de yoga – o de que yoga é ‘parar de pensar’.
A palavra nirodha pode de fato ser traduzida como ‘interrupção’ ou ‘parada’, mas o caso é que no contexto de yoga este significado não cabe, pois a mente como um instrumento de relacionamento com o mundo não pode ter sido criada para ser desligada. Ademais, já desligamos a mente todos os dias no sono profundo, e isso não nos torna seres humanos mais sábios ou melhores, nem nos livra de uma vez por todas do sofrimento, apenas nos oferece um descanso necessário para que no outro dia possamos continuar nossa interação com o mundo.
No contexto de yoga, nirodha significa o comando sobre a mente, a capacidade de interagir conscientemente com um objeto sem que padrões mecânicos de pensamento e conduta interfiram demais nesta interação. Só assim é possível um conhecimento adequado do objeto, por meio do qual as melhores escolhas com relação a ele serão feitas, e o sofrimento será amplamente atenuado.
‘Parar de pensar’ é algo que está tão distante da prática de yoga quanto ‘perder dinheiro’ está distante da prática dos ambiciosos e competentes investidores do mercado de ações. Lembro-me de certa vez ter sido seriamente indagado por uma aluna acerca da contradição de eu ser, ao mesmo tempo, praticante de yoga e estudante de filosofia na universidade. Expliquei a ela que yoga é pensar no sentido estrito do termo, isto é, a habilidade de olhar para um objeto e entendê-lo como ele de fato é e se mostra, sem estar preso àquilo que impede todo o pensamento verdadeiro – as memórias, preconceitos e emoções passadas que, projetados inadvertidamente no objeto, impedem que ele se mostre na sua natureza.
Seria fantástico se a mente humana estivesse sempre passivamente disponível como um instrumento obediente, que acata todas as nossas decisões e pensa somente aquilo que queremos e que é benéfico para nós. Entretanto, não é assim que ela funciona. A mente tem um “defeito” irreparável: ela “pensa” por si mesma, automaticamente, sem pedir nossa permissão. Não é exatamente por isso que de repente, sem que saibamos exatamente o porquê, tornamo-nos tristes, temerosos ou irritados? E não somos tomados por essas emoções desde o nada; existem pensamentos não-deliberados, ainda que fora do escopo da nossa consciência, que nos fazem sentir assim.
As diferentes práticas de yoga podem ser vistas como maneiras de, aos poucos, o praticante ir tomando posse de sua própria mente à medida em que ocupa o terreno mental usualmente tomado por pensamentos não-deliberados. Quando, na prática de asanas, a pessoa é instruída a fazer diferentes movimentos em sincronia com a inspiração ou exalação, ela está usando a mente de maneira deliberada. Ela está se apropriando de sua própria mente. Igualmente, na prática de pranayama a pessoa está inspirando, retendo a respiração e exalando conscientemente, ficando assim em poder da sua mente, já que não é realmente possível regular a respiração com uma mente dispersa. Depois de asana e pranayama a pessoa está, segundo o que Patañjali nos diz no segundo capítulo dos Sutras, qualificada para a concentração, dharana, justamente porque ela tem então a mente nas suas mãos, disponível para ser aplicada em algum objeto de meditação.
Disto já se depreende que o propósito da prática de asanas não é ser um exercício físico, ainda que o corpo acabe se exercitando necessariamente na prática de asanas e colha disto frutos desejáveis. De fato, outro erro bastante frequente entre os praticantes é a crença de que asana serve para deixar o corpo saudável, mas este não é o objetivo primário dos asanas, se é que queremos entender asana como yoga, isto é, como citta-vrtti-nirodha.
Yoga é ser de fato um ente consciente. Quando há yoga, diz Patañjali no terceiro sutra do primeiro capítulo, estamos estabelecidos na nossa natureza de sermos os observadores de tudo, capazes de reflexão verdadeira e ação deliberada. Quando não há yoga, diz o sutra seguinte, somos tomados pelos padrões reativos da mente e, apesar de continuarmos sendo seres conscientes – conscientes da própria atividade mental – tornamo-nos escravos dos impulsos dela.
Esse texto foi escrito por Luciano Giorgio e extraído do site satsangaonline.com.br de Jonas Masseti.
Eis o que gostaria de dizer sem precisar acrescentar nada :). Muito grata! Glaucia Cantergiani